Macacos sem galho

Apocalipse

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Os 4 Cavaleiros do Apocalipse

O que é um apocalipse? Apocálypsis – uma revelação. Não um final, mas uma mudança nascida de um momento de compreensão definitiva. Talvez catastrófica.

Um momento que vamos esperando e evitando, em doses iguais. Uns dias empurra de um lado, outros, do outro. Mas sabemos que enquanto mantivermos um braço de ferro entre os nossos próprios braços, nunca vamos ganhar essa clarividência que tanto nos falta.
Passamos a vida convencidos de que certos pensamentos e ideias são castastróficos e destruidores, que não pode haver revelação e consequente mudança sem a hecatombe que lhe associamos.

Mas com o passar do tempo e talvez com alguma ajuda, começamos a perceber que nada disso faz sentido. Que algumas verdades que tomávamos por basilares são só possibilidades num mundo onde o que não faltam são outras possibilidades. São apenas pensamentos e ideias válidos e aceitáveis que podem facilmente co-existir com qualquer forma de realidade que possamos habitar.

Crescemos a olhar para nós próprios como pessoas de amplos horizontes, moral equilibrada, filosofia flexível e demoramos anos a fio a perceber que somos todos dogmáticos e fechados para alguém, somos todos inflexíveis e retrógados para outras pessoas.
E essas outras pessoas somos nós próprios, a nossa própria versão apocalíptica – de olhos abertos, conhecedores, livres.

Mas acordamos todos os dias, com o rastilho numa mão e o fósforo na outra, incapazes de os juntar para enfim podermos espreitar e ver o que está para lá do muro, sem receio que nenhum destroço nos caia em cima e nos esmague, mesmo ali, à beira da nossa própria revelação.

Imagem: “Os 4 Cavaleiros do Apocalipse“, de Victor Vasnetsov, 1887. Fonte: Wikipedia.

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Whiplash

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Whiplash

Recentemente, vi o Whiplash. Um filme que separa ser apenas bom de ser o melhor e o faz submerso em jazz e com uma realização estupenda e uma fotografia deliciosa. A permissa já de si é boa. Mas o facto de fazer tudo isto sem cair em demasiados clichés melodramáticos faz de Whiplash um dos meus filmes preferidos dos últimos anos.

É verdade, estou longe de ser o consumidor de cinema que em tempos fui. As razões para isso são múltiplas, mas a mais forte é provavelmente algo patética: a ideia de que se vir um filme e for mau, incorri num desperdício de tempo catastrófico. É, portanto, especialmente bom quando faço esse investimento e saio com o resultado diametralmente oposto: um filme que não só me deu imenso prazer ver, como sei que vou rever várias vezes.

Whiplash não tem uma história complicada ou sequer imprevisível, mas está bem contada e parece-me humana. Apesar dos dois personagens principais serem especialmente bons músicos, a um nível que muitos excelentes músicos nunca chegarão, não deixam de ser apenas duas pessoas. Nem um é herói, nem o outro vilão. Simplesmente, vivem num mundo onde o nível de exigência e a especialização é de tal ordem que não existe margem de manobra para ser menos do que absolutamente brilhante.

Existe muita música onde se pode ser muito relevante, bom, interessante, até mesmo bem sucedido. E depois existe o mundo representado no filme (acredito que o mesmo pudesse contar uma história de um executante de música clássica, onde acredito que o nível seja semelhante ou superior) e sim, eu acho que é importante gostar-se de música para ver este filme. Não será essencial, porque é genericamente um bom filme, mas acho que há certos detalhes que poderão ser melhor apreciados por amantes de música.

Tentem acompanhar onde estão os desafinos ou as falhas de ritmo detectadas pelo implacável professor Fletcher ou perceber como ele elimina um saxofonista antes que ele consiga tocar a sua terceira nota. Pela simplicidade, pela realização cuidada e pela fotografia cor de âmbar, Whiplash agarrou-me, pelos detalhes musicais, entrou para a minha lista de filmes preferidos.

Whiplash é um filme de 2014, estreado em Sundance. É escrito e realizado por Damien Chazelle e tem Miles Teller no papel de Andrew, um jovem aspirante a melhor baterista do mundo (é mesmo ele que toca bateria no filme) e J. K. Simmons, como seu exigente e agressivo professor Fletcher. Vale a pena ver, fica o trailer.

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Especialistas (quase) ao vivo

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Os Especialistas são um cartoon criado por mim e pelo Nelson Martins em 1998 para a Digito, uma publicação digital portuguesa entretanto, infelizmente, extinta.

A tira passou por várias fases, tendo desaparecido com o fim da Digito re-surgiu no primeiro Codebits, a convite do SAPO. Havia de voltar a parar para, desde finais de 2012, recomeçar novamente, desta vez já só com tiras minhas.

Dou por mim muitas vezes a pensar que sou um cartoonista acidental. Embora sempre tenha feito banda desenhada (saudosas, as aventuras do Super Labrego), sempre me senti um invasor de um mundo onde tanta gente é tão melhor a fazer bonecos falantes.

Quase todas as semanas fico maravilhado com o facto de conseguir fazer uma nova tira (os Especialistas saem às terças-feiras, no site do Codebits), quando muitas vezes já me parece que não vou ter ideia nenhuma ou que vou acabar a repetir uma tira qualquer que já fiz antes.

Mas é engraçado: quanto mais faço, mais me parece difícil mas mais fácil se torna. Custa-me imaginar como trabalharão os cartoonistas que todos os dias têm que ter uma tira nova (já agora, sobre isso, aconselho vivamente o estupendo documentário “Stripped“), mas ao mesmo tempo também os invejo um bocadinho por fazerem diariamente aquilo que tanto gozo me dá fazer ao fim de semana.

Acima de tudo, escrever e desenhar estes bonecos é um momento único na minha vida e provavelmente uma das minhas coisas preferidas, em que todo o processo, desde ter a ideia, a escrever o texto, desenhar as vinhetas e pintar tudo, me dá especial prazer.

Esta semana, quis partilhar esse processo com toda a gente. Embora já tenha feito vídeos com captura de ecrã antes (como este ou este), nunca tinha feito um em que se percebesse exactamente como faço uma destas tiras com as minhas mãozinhas. Portanto, peguei no telefone, coloquei-o numa estante para partituras que apontei para a minha Wacom e filmei todo o processo.

Desta vez, como já tinha tido a ideia e o texto já estava na tira, todo o processo documentado no vídeo demorou cerca de 35 minutos. É mais ou menos invulgar uma tira estar pronta em tão pouco tempo, mas como já tinha tudo alinhado e os desenhos eram simples, acabou por funcionar bem para o vídeo. No dito, comprimi o tempo para 10 minutos, o que significa que está tudo cerca de três vezes mais rápido e pronto, sem mais demora, deixo-vos o dito vídeo. Enjoy.

Esta tira, especificamente, pode ser lida aqui. Está em inglês, dado que o Codebits tem um público internacional, mas não me parece que isso seja um obstáculo, nos dias que correm.

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Um passeio na Gulbenkian

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Gulbenkian

Eu sei… ao fim de todo este tempo, já parece que este blog é mais um ocasional repositório de coisas compridas demais para o Twitter ou Facebook e não aquilo que já em tempos foi: um registo pessoal de tudo um pouco, do que se cruza com a minha vida e que me sinto compelido a pôr em palavras.

Chegar agora aqui para falar de um passeio em família pelos jardins e museu da Gulbenkian pode parecer já quase deslocado, mas não faz mal. O que este blog tem sido é uma espécie de companheiro, já de quinze anos, quase dezasseis e que vai aguentando as mudanças que a minha própria vida leva, adaptando-se como pode.

Agora que começo a sentir uma necessidade quase física de escrever e que vou enchendo ficheiros (ainda se enchem cadernos?), com os mais variados e profundamente neuróticos disparates, lembrei-me novamente do Macacos Sem Galho e de como está sempre aqui disposto a amparar-me os golpes.

A vida é tanto sobre o que nos acontece como e sobre a forma como lidamos com isso. E às vezes, a forma de lidar com coisas é acordar de manhã e decidir ir passear.

Não fui eu, foi a Dalila. Equanto eu tomava o pequeno-almoço sugeriu que fossemos dar uma volta nos jardins da Gulbenkian com o plano b de visitar o museu se começasse a chover (algo que estava previso para a uma da tarde e que aconteceu, com precisão germânica, à uma da tarde).

Debaixo de um vento incómodo e frio pouco convidativo, encolhemos os ombros e metemo-nos no carro rumo a Lisboa.

Os miúdos adoraram os jardins, sobretudo o Tiago que correu desvairadamente por todos os cantos e recantos, desaparecendo várias vezes da nossa vista, mas demonstrando que sentido de orientação é coisa  que não lhe falta, pela facilidade com que dava voltas e regressava sempre ao nosso lado.

Fizemos uma visita à geladaria do centro interpretativo, uma Ice Gourmet (ao que parece), simpática e confortável, cheia de gente a ler e coisas assim. A Joana foi a única a provar um dos tais gelados gourmet e pareceu satisfeita.

Quando saímos do café, começou a chover. Depois de uma visita rápida ao CAM (para fazer xixi, não para ver arte moderna), rumámos, sob a chuva, ao Museu Gulbenkian, que acabaria por não ser apenas o plano b, mas a segunda parte da visita.

Os miúdos entraram cheios de entusiasmo que foi desvanecendo ao longo da colecção, o que não foi de todo inesperado, nem impediu que revisitássemos aquela galeria onde não punhamos os pés há muitos, muitos anos.

Tiago no Museu Gulbenkian

Visitar a Gulbenkian trouxe-me boas memórias e atirou-me, mesmo que temporariamente, para outro um outro eu, que tem estado arrumado, enterrado, como se esperar por melhores tempos fizesse alguma espécie de sentido.

O ambiente do museu, as obras de arte, as pinturas, esculturas, até o mobiliário antigo,  lembram-me que um dia fiz uma escolha, que optei por segurança, carreira e essas coisas bonitas que o mundo parece exigir-nos silenciosamente; lembra-me que, algures pelo caminho ficou outra coisa, uma coisa diferente, onde técnica não tem nada a ver com hardware, onde paixão não tem qualquer relação com o mercado e onde a inovação é uma coisa pessoal.

Os últimos tempos têm sido brutalmente frustrantes, o dia a dia não reflecte minimamente a minha ambição, o mundo não quer saber de nada disso e já tendo idade para ter juízo, vou fazendo um esforço por me manter funcional numa altura em que a única opção que me parece sensata é a de me deitar no chão algures e não me voltar a levantar enquanto não achar que sei tudo. Ou seja, nunca.

Mas felizmente há momentos como este, hoje. Com as pessoas que mais amo no mundo, sem problemas, sem conflitos, apenas com o prazer de mergulhar num mundo que por razões que me transcendem, deixei para trás.

Talvez esteja na altura de ir buscar uma pá.

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O Estado e a Nação

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Cresci a aprender que dantes tinhamos uma coisa má: a ditadura, e que agora temos uma coisa boa: a democracia. Aprendi que votar é importante, que participar é necessário e fui aceitando a ideia de que um dia, pela força do voto, viria alguém governar e melhorar o país. Não que o país não esteja melhor em inúmeros aspectos, nos últimos 40 anos, claro que está, mas acho que todos partilhamos um bocadinho a sensação de que há muito por onde melhorar nos mais diversos sectores e que parece que há uma espécie de barreira invisível que se tem adensado nos últimos anos.

Quando passei pelos 20s e até pelos 30s e percebi que nada é nunca tão simples como se consegue descrever num parágrafo, lá no fundo, confesso, continuava a viver aquele mito Sebastiânico de que nós, portugueses, sempre gostámos. A história daquela pessoa, que se calhar até podemos ser nós, que no último minuto surge, de lado nenhum, qual Nené saído do banco para marcar o golo da vitória.

É claro que é sempre mais agradável imaginar que um dia vai haver mudança e felicidade e luz solar 300 dias por ano, do que fazer alguma coisa por isso, dirão. Eu diria outra coisa: é mais fácil acreditar que as coisas vão melhorar um dia, do que enfrentar a dura realidade: nada é como parece ser e já ninguém tem interesse na mudança.

Já há algum tempo que comecei a perceber que as coisas não são nada do que parecem. Acho que comecei a desconfiar aí por volta de 2001. Eu sei, é muito exacto, mas recordo-me desse momento com alguma clareza. Mas este tipo de desconfianças não são confortáveis. Não queremos começar a olhar-nos ao espelho e a ver um teórico da conspiração; não ajuda nada que, se conversarmos com as pessoas sobre isto, a maioria fique desconfortável e comece a afastar-se e a girar a ponta do indicador na têmpora.

Mas de facto, hoje em dia já não tenho grandes dúvidas que nada é aquilo que tenta aparentar ser. Mas o que é que eu quero dizer com isto?

O que eu quero dizer com isto

Os portugueses votam cada vez menos e é objectivo dos partidos do poder que os portugueses votem cada vez menos. Quanto menos votam, mais a votação de afunila e mais fácil é prever a movimentação do poder legislativo. Prever e até mesmo, programar.

Não é que reduzir drasticamente a abstenção tivesse particular impacto, mas podia causar alguma imprevisibilidade. Assim, não são criadas iniciativas relevantes para levar as pessoas a votar; assim, estamos bem.

Os partidos tornaram-se então, não um veículo de alguma ideologia social que trabalhe para o bem comum, mas uma plataforma de negociação de contratos, contrapartidas e alguma legislação. E isto é perfeitamente normal. Foi sendo feito e está em plena fase de consolidação. Não vale a pena gritar e agitar os punhos.

Agora não há assim muito a fazer. Continuar a votar é importante, porque, à parte de um meltdown civil completo, é a única forma dos indivíduos se exprimirem em relação ao poder aparente. O problema é arranjar forma dos indivíduos se exprimirem em relação ao poder efectivo.

Um governo, actualmente, existe para manter equilíbrio social e para tornar o país atraente para investidores. Isto significa que a infraestrutura tem que ser moderna, a mão de obra tem que ser especializada mas barata e a população tem que estar em paz. E pode até ser discutível se, sendo o país um excelente alvo para investidores diversos, isso não é vantajoso para a população.

Pode ser, mas isso não faz com que exista esse objectivo ou que o mesmo seja prioritário. Até porque se a população autóctone se torna demasiado evoluída em resultado da riqueza crescente do país, a parcela ‘mão de obra barata’ cai e depois é preciso abrir a torneira da imigração, o que, geralmente, faz desequilibrar a parte da ‘população em paz’.

É, de facto, um fino equilíbrio. Como um parasita que precisa da vítima para se alimentar, mas não com voracidade tal que a mate, negando assim o seu próprio sustento.

Portanto, em Portugal, agora as coisas funcionam: temos uma infraestrutura excelente, uma mão de obra especializada mas barata e não há sinais de guerra civil. O governo vai espremendo, espremendo e a malta vai aguentando e aguentado. Entretanto, felizmente, há muito futebol para ver, comentar e discutir; até mesmo para indignar muito mais do que impostos, cortes ou desemprego. Há muito show de cantoria na TV, muita Casa do Segredo, muita celebridade a fazer plásticas. E há muita dúvida, muito sentimento de inferioridade que faz dos portugueses gajos que achem muitas vezes que não são grande coisa. Somos pequenos, somos humildes, não convém sonhar muito alto e se o fizermos, que seja no futebol, que é a única coisa em que nos incentivam a pensar e, vá, pelo menos o melhor jogador do mundo é nosso!

Entretanto, multimilionários por trás de enormes empresas vão orientando as coisas em função das suas mais-valias. Sejam submarinos, Bancos ou privatizações diversas – as coisas mais visíveis e evidentes, que até se permite que saiam no jornal – ou centenas de outras movimentações que dificilmente nos chegam aos ouvidos e que provavelmente totalizam muito mais. E certamente que qualquer destes negócios está tão longe da nossa compreensão, como simples cidadãos, que somos pouco mais que formigas financeiras, perante gigantes de outro planeta.

Na maioria da comunicação social, a informação é manipulada, colocada, removida, alterada, seja para promover ou distrair. Sob a forma de notícias, reportagens e artigos de opinião. Mas claro que toda a gente se choca quando se sabe que o Facebook fez uma experiência social com os seus utilizadores enquanto todos os dias somos ratos de laboratório numa gigantesca “experiência social”.

Pronto, já cheguei certamente àquela parte do post em que a maioria de quem leu até aqui está a torcer o nariz a pensar que eu perdi de vez o juízo, sou um teórico das conspirações, que não posso mesmo acreditar no que estou a escrever e que não passo de um pessimista.

Eu sei. Não é um tema fácil de abordar sem parecer maluco. E depois fica ainda mais difícil se eu disser: o objectivo é mesmo esse. Como no 1984, de George Orwell e o Ministério da Verdade e a sua Novilíngua. Enfim… ficção? Afinal não é assim tão complicado torná-la realidade, basta não ser assim tão óbvio.

Mas não há hipótese, quando se ultrapassa aquela linha de loucura aparente, tudo o que dissermos só nos enterra mais, aos olhos de quem ainda acredita que não são uma mão cheia de pessoas que mandam nos países, que as empresas têm mais poder do que os partidos, que estes são todos corruptos e iguais uns aos outros, que quem tem interesse no bem comum não está em nenhum lugar onde possa promovê-lo e que um dia vai deixar de haver injustiça e corrupção e que vamos todos ter uma educação do caraças e ser modernos e ricos e felizes.

Nada disto invalida, claro, que existam muitas pessoas honestas, profissionais e idóneas em todas as instituições, media e empresas. Nem sequer estou a tentar dizer que existe um enorme império do mal a gerir o nosso mundo: simplesmente, já passámos por isto muitas vezes antes e acabamos sempre a bater com a cabeça na História mais ou menos da mesma maneira: arranja-se uma forma de governo aparente, por detrás da qual acaba sempre por se descobrir um poder efectivo e as populações ou se deixam enganar, ou não se enganam, mas aceitam o status quo, ou se rebelam e acaba tudo em sangue. E depois repete.

Também é absolutamente inegável que o nosso país evoluiu nos mais diversos indicadores sociais e económicos, nos últimos 40 anos. Já não somos um país de analfabetos, com altos índices de mortalidade infantil e infraestruturas do século XIX. Mas o que se sente no ar agora é que voltámos ao corporativismo de outrora e que as pessoas que promoveram essa evolução ou desapareceram, ou mudaram de intenções e a população está num estado de estupor padronizado, incapaz de reagir ou sequer de desejar reagir.

A minha preocupação agora é: o que é que eu ainda posso fazer e o que é que eu posso ensinar aos meus filhos sobre o mundo que lhes permita fazer algo melhor? Ou seja, quando o pessimismo é confirmado e se torna realismo, a única forma de o contrariar é a acção.

Que acção?

Sinto que educar os miúdos sobre o bem comum, a natureza, o valor da arte e da cultura sobre o materialismo é muito bonito, mas provavelmente também um caminho para eles crescerem vendados para a realidade. Esses valores são importantes, mas não suficientes.

Por outro lado, povoar a juventude deles com imagens obscuras de senhores de fato em reuniões secretas para decidir como melhor extorquir dinheiro para si próprios sem qualquer preocupação pelo bem comum, o ambiente ou a paz, parece-me desnecessariamente assustador e não oferece nenhuma estratégia para lidar com isso que não a alienação.

E quanto a nós, adultos, o que podemos fazer por nós próprios? Votar? Eu acredito nisso, mas eu cresci a acreditar nisso, porque nasci em ’73.

Atribui-se ao Mark Twain a frase: “Se votar fizesse diferença, não nos deixariam fazê-lo”. Pondo de parte o facto de que muitas frases atribuídas a Twain não são de Twain, uma coisa parece certa: há algo nesta frase que me apoquenta… é que parece fazer cada vez mais sentido.

Nos Estados Unidos foram recentemente atribuídos a empresas alguns dos mesmos direitos que as pessoas. É quase como dizer que uma empresa e uma pessoa são a mesma coisa. Isto implicou que as empresas passassem a ter direito à liberdade de expressão que se traduz, grosso modo, em poderem dizer o que quiserem nas embalagens dos seus produtos. Claro que não se esticam tanto como virem dizer que Coca-Cola cura o cancro, até porque estão nos EUA e por lá rapidamente receberiam uma class action suit por publicidade enganosa, mas aproveitam, obviamente, para bloquear coisas como as tentativas que andam a ser feitas por diversos grupos de cidadãos de ter avisos nos rótulos sobre o conteúdo exagerado de açúcar nas bebidas.

Isto para dizer o quê? Que votar fez pouca diferença neste caso. Os legisladores que aprovaram o direito à liberdade de expressão das empresas não o fizeram pelo bem comum do povo americano, fizeram-no porque foram pagos pela indústria alimentar para o fazer. E nisto não é teoria da conspiração, o lobbying é uma profissão reconhecida nos States. Agora se isto é feito às claras, o que será feito às escuras?

Entretanto, em Portugal, parece que começa a sugerir-se que se legisle o lobbying, como actividade reconhecida.

Precisamos de estar cientes de como as coisas funcionam e de nos deixarmos de ilusões; se o Ministro da educação está a dar cabo da escola pública ou da vida de professores e alunos e o PM vem elogiá-lo pela forma como está a lidar com os problemas, não podemos achar que é tudo incompetência e falta de vergonha; por alguma outra razão a coisa é como é: qual é essa razão?

É difícil que alguma coisa seja uma mera bronca, um pequeno descuido ou uma enorme asneira. As coisas acontecem porque é suposto acontecerem. Não precisa de ser uma enorme conspiração e é claro que há excepções, claro que há imprevistos e confusões, mas não nos podemos deixar enganar assim tão facilmente.

Mas divago… devia estar a falar sobre acção, só que não é fácil falar disso. Porque eu próprio estou à nora, sem saber o que fazer e honestamente, convencido de que a tarefa é hercúlea, senão impossível.

Talvez o mínimo que se possa fazer seja isto, ou algo nestas linhas:

  1. Questionar
    Devemos questionar o que vemos, ouvimos e lemos. Será que é mesmo assim? Estamos a deixar-nos levar demasiado pelo imediatismo da partilha de informação sem verificação, do impulso de mandar o link para os amigos, de uma notícia escabrosa que rapidamente se verifica ser falsa. Estamos mais fáceis do que nunca de manipular porque acreditamos em tudo, pior: quanto mais obscena for a notícia, mais depressa acreditamos!
  2. Votar
    Votar continua a ser importante, parece-me. É importante, acima de tudo, dispersar o voto. Quando se fala em votar nos pequenos partidos, não creio que o objectivo deva ser o de eleger um deles, mas sim o de eleger o máximo possível de deputados de diferentes partidos. Aumenta-se a probabilidade de alguns deles não serem mais uma engrenagem na máquina (mesmo que inadvertidamente).
  3. Educar
    A educação é a força da civilização. Por alguma razão os Nazis queimavam livros, por alguma razão, os extremistas não querem as mulheres nas escolas. Se questionamos (ver 1), devemos partilhar as nossas dúvidas e pôr mais pessoas a pensar. Sem paranóias, mas com realismo e o mínimo possível de ingenuidade. E ensinar os nossos filhos, com esse realismo e sem drama, nem conjecturas excessivas.
  4. Diversificar
    A conformidade facilita a manipulação. Em vez de passarmos o tempo a falar de futebol e a ver a Casa dos Segredos, a seguir a moda mais recente na roupa, nos cabelo e até na comida e bebida (hello, hamburgers artesanais e gin tónico!) e a fazer tudo o que os media nos ditam que é o que devemos estar a fazer, que tal fazer o que nos apetece? Cultivar a individualidade enriquece a sociedade, caso contrário, mais vale sermos todos robots.
  5. Denunciar & actuar
    Devemos falar disto, discuti-lo, manter as ideias presentes. Será este texto demasiado paranóico? Será que não é paranóico o suficiente? Como é que podemos manter estes assuntos vivos, olhar para além do óbvio, ler por trás das manchetes, ouvir por trás dos discursos dos líderes? Como podemos organizar-nos para fazer alguma parte, dar algum contributo, dentro dos nossos serviços, escolas, empresas?

Finalmente: ando a escrever este artigo há várias semanas, já teve várias formas, já foi refeito, reescrito, reorganizado e posto a marinar por diversas vezes. Este é um assunto demasiado complexo para a minha capacidade de análise. Não entendo de geo-política, economia, sociologia, nem de assuntos relacionados o suficiente para escrever um ensaio como deve ser sobre o assunto.

Além disso, é-me extremamente difícil organizar o meu pensamento neste tema em frases com sentido, em que consiga expor o que creio ser evidente, sem entrar nem em territórios que desconheço, nem em extrapolações lunáticas. Fiz o que pude com as ideias que tenho na cabeça.

Agradeço a discussão e contributo que possam dar, se tiverem tido fôlego para ler este texto. Mas sobretudo, interessam-me sugestões de como intervir, agir e contribuir para melhorar. E olhem:

Stay positive

Stay positive!

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