Publicamente transportado

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Há dezoito anos atrás comecei a ir regularmente para Lisboa para ir às aulas…

Perdoem-me um pequeno momento para me rir da afirmação anterior.

Bom, há 18 anos atrás comecei a ir regularmente para Lisboa passear e foram os transportes públicos que me permitiram tal deslocação.

Vivia em Cacilhas e a minha viagem era composta de uns 5 minutos a pé, 10 minutos de ferry e depois uns – não me lembro bem – 15 minutos do Cais do Sodré ao Largo da Academia de Belas Artes.

Fiz isto durante cinco anos e depois meti-me nesse maldito vício que é o trabalho e as visitas a Lisboa tornaram-se mais ocasionais. Ainda assim, para ir à Capital, falar com clientes, ia maioritariamente de transportes públicos.

A conversa de despedida no final das reuniões era quase sempre na base de “então e onde deixaram o carro? Isto aqui para estacionar…!”, seguido de um olhar vazio quando a nossa resposta incluia “transportes”.

Hoje em dia tenho a certeza que perdi clientes por andar de transportes. É que em Portugal, explicou-me um dos clientes que não perdi, os clientes ganham-se e perdem-se no parque de estacionamento: BMW, Mercedes, Audi… dão direito a cliente; Porsche, Ferrari, Lamborghini é para esquecer, porque certamente humilharão o Beemer do cliente e, claro, Fiats, Renaults e Citröens vão exigir muito suor para a conquista da conta.

Transportes públicos? Mas que inacreditável ousadia. Quem me dera ter sabido isso antes. Teria comprado uma chave de imitação de um Passat que manteria discretamente na mão ao despedir-me do cliente e poderia bufar algo como “bom, vamos lá ver se não tenho multa!”.

Mas adiante.

A minha relação com os transportes públicos haveria de voltar a uma regularidade próxima da de um vegetariano que só come fibras nos finais de 2003 quando fui trabalhar para o SAPO.

Na altura, a coisa pareceu-me fantástica: 10 minutos a pé (que agora vivo 100 metros mais acima e não ando tão depressa como quando tinha 18 anos), 10 minutos de barco e depois uns 20 minutos de metro e lá estava eu em Picoas. Deveriam ser 40 minutos mas na verdade eram mais 50 ou 60, com as trocas de linha e as esperas.

E durante seis anos e meio, foi o que fiz. Todos. Os. Dias.

Mas entretanto, entrou em funcionamento o metro de Almada – um comboiinho eléctrico que atravessa alegremente o Concelho para cima e para baixo. Fiquei com tentações de mudar de percurso, mas achei sempre que não era justificável: em vez de andar 10 minutos a pé até ao barco, teria que atravessar toda a cidade, até ao Pragal; depois, teria que entrar em Lisboa de comboio, o que é muito mais caro que qualquer outro transporte e finalmente ainda teria que andar de metro em Lisboa.

Ao longo dos meses que o MTS esteve em funcionamento, fui pensando na ideia porque já tinha andado no comboio da Fertagus e achado a coisa bastante confortável, porque os barcos da Transtejo são indescritivelmente desconfortáveis e porque o meu percurso no ML era aborrecidíssimo: entrar no Cais do Sodré, andar uma estação, trocar para a linha azul na Baixa-Chiado, andar três estações, trocar para a linha amarela no Marquês e andar uma estação, para sair em Picoas.

É tão aborrecido que adormeci por uns momentos só de o descrever.

Para piorar a situação, o passe para fazer o percurso novo custa o dobro do meu passe habitual.

Eis senão quando, a Isa decidiu passar a ir de combio. A Isa vive, basicamente, no cimo da avenida onde eu vivo – ligeiramente mais longe do barco do que eu, mas pouco – e ficou imediatamente agarrada ao novo percurso.

Assim, dia 3 de Agosto, regressado de férias, decidi fazer o percurso MTS > Fertagus > ML à experiência e dia 4, apesar de ainda ter o meu Lisboa Viva carregado com o combinado TT/ML, comprei o passe combinado Fertagus/ML. No dia seguinte comprei o complemento para o MTS.

O novo percurso leva-me de metro, em Almada, sentadinho, a ler e ouvir música, de Cacilhas ao Pragal; depois, sentadinho e a ouvir música, o comboio leva-me até Entrecampos e finalmente, se me apetecer, vou sentadinho e a ouvir música de Entrecampos a Picoas, de metro, sem ter que mudar de linha.

Pago o dobro.

Levo precisamente o mesmo tempo.

Mas é. TÃO. Mais. Confortável!

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10 comentários a “Publicamente transportado”

  1. Dextro says:

    Realmente é uma coisa que já me aconteçe há muitos anos, aquele olhar de quem está a olhar para alguém louco, uma abominação quando digo que uso os autocarros da Carris e o Metro de Lisboa e que ainda por cima me servem muitissimo bem…

    Devo realmente ser maluco para achar que a Carris até faz bom serviço… :O

  2. eu vivo em Faro.. demoro 10 minutos a pé da minha casa ao Hospital de Faro, que é onde trabalho..e demoro 15 do hospital a casa porque é a subir.. :P

    pronto.. :P

    o Algarve é aquela coisa boa.. :P

  3. É triste, mas cá há esta noção de que só os tesos andam de transportes públicos.

    No entanto, há outra forma de ver as coisas: o autocarro é um Volvo ou Mercedes com chauffeur ;)

  4. Joao says:

    É estúpido. Porém verdade. Ganham-se e perdem-se clientes com base naquilo que se conduz. Conheço casos concretos.

  5. Rui Venancio says:

    De facto o comboio é fantástico, mas extremamente caro. Fica-me mais barato e chego mais rapidamente a Lisboa se vier de carro.
    Contudo dou preferência ao comboio porque o tempo de transporte é feito a ler ou a trabalhar (coisa que no carro não posso fazer).

  6. […] mais bem guardados de quem atravessa diariamente o Tejo. E um dos melhores argumentos para ser "publicamente transportado" em qualquer cidade. Parece-se muito com a sensação de viajar de avião, mas por um euro e […]

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