A zona pedonal de Almada e outros mitos urbanos

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Este fim de semana, pela segunda vez, peguei no Tiago montado no seu triciclo e fui dar uma volta por Almada.

Subindo as sucessivas avenidas (quem não mora cá, acha que Almada é uma longa avenida, mas na verdade são várias consecutivas), rapidamente entro na nova zona pedonal da cidade. Não é uma secção muito grande… começa a meio da Avenida D. Afonso Henriques e termina na Praça São João Baptista.

Esta área está demarcada com grandes cartazes que indicam que esta é uma zona de trânsito proibido, exceptuando os casos especiais, claro: moradores devidamente identificados, transportes públicos, veículos de emergência e transporte de valores.

Mesmo estes têm limitações – de peso, por exemplo – e só podem permanecer na zona pedonal alguns minutos.

Finalmente, o cartaz informa, em letras quase minúsculas e com recurso a um sinal de trânsito do tamanho de uma bolota mirrada, que a velocidade máxima ali é de 10 km/h.

Tenho medo da zona pedonal.

Toda a área é empedrada e tudo parece passeio e a tentação é para andarmos à vontade, evitando apenas a óbvia linha do metro. Mas o risco de se ser atropelado ali é razoavelmente superior ao resto da cidade.

Estranho para uma zona pedonal, mas não tanto: é que no resto da cidade sabemos bem que não devemos por o pé no alcatrão e sabemos que há carros – e muitos – e que andam – e depressa.

Na zona pedonal a estrada não se distingue bem do passeio e estamos à espera que não hajam muitos carros e que os poucos que ali passem andem, no máximo, a 10 à hora.

Dez quilómetros por hora é uma velocidade muito baixa. Para terem uma ideia, o Usain Bolt consegue correr quase quatro vezes mais rápido que isso… e não é um carro.

Nota-se que alguns condutores fazem um esforço para andar lentamente, mas estes estão longe de ser a maioria.

Em suma: na zona pedonal, a um Domingo à tarde, de facto há muitíssimo menos trânsito do que sempre foi costume naquela zona. Mas o trânsito está lá e é constante. Está sempre a passar um carro ou dois. Vários destes vêm a uma velocidade considerável e, não havendo lancis para os passeios, fazem as curvas por onde muito bem entendem.

Não bastando isto, as carreiras da TST que por ali passam são frequentes o que me surpreende ainda mais porque, ao planear o metro e a zona pedonal, seria lógico que se tivessem desviado os autocarros para outros lados.

Em suma: não existe zona pedonal em Almada. É uma farsa patética. Sim, o trânsito reduziu, mas é impossível andar livremente naquela zona sem correr o risco de atropelamento.

Também não vi polícia em lado nenhum, o que me leva a perguntar quem verifica se os veículos por ali circulam cumprem as normas estabelecidas. É que, subindo e descendo toda aquela zona, vi vários carros que mais não estavam a fazer do que atravessar a cidade impávida e serenamente, sem quaisquer cargas ou descargas para fazer ou cartões de residente para justificar a sua circulação.

Já agora aproveito para acrescentar uma coisa. O PCP não sabe desenhar cidades. Adoram construir praças enormes, empedradas com grandes lages cinzentas, nuas e frias.

Toda a zona da S. João Baptista é assim. Porreiro para os putos andarem de skate e para se montarem palcos e tendinhas para festas, mas urbanisticamente cinzento.

A praça em frente ao jardim é outra que tal: parece tudo alisado e cimentado e só falta uma estátua do Lenin no meio.

Agora, a praça da Renovação junta-se-lhes. Hoje, vi-a do cimo da avenida e vi-a em toda a sua fealdade: cinzenta, vazia, nua, com dois semi-circulos de betão inclinados que não se percebe para que servem ou o que representam. Com os postes metálicos, os cabos e os carris do metro a irem por ali abaixo, a dita zona pedonal de Almada é feia como cornos.

E até me espanta; mais acima, a linha do metro corre numa faixa relvada, verdinha, que dá à cidade um ar simpático. Bastava um rectângulozinho de relva e… sei lá, umas árvores, e a Renovação seria outra…

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21 comentários a “A zona pedonal de Almada e outros mitos urbanos”

  1. Nelito Carrapito says:

    Pois…

    não há zona pedonal mesmo, só de nome. A decisão de fazer da zona pedonal uma zona mais ou menos foi da câmara para apaguizar os comerciantes que conhecem bem os clientes que têm. Se não podem estacionar os carros à frente da loja onde querem comprar o que seja que vão comprar, simplesmente não compram ou não se deslocam até há zona.

    Agora os comerciantes deviam unir-se em associações, ou uma pelo menos, para dinamizar a zona com artistas de rua (música, palhaços, malabaristas, demostrações gigashoping, whatever, …) e principalmente deviam ter horários adaptados à realidade do dia-a-dia de quem habita na zona. Talvez assim conseguissem fazer frente a um forum almada. e principalmente devia partir deles a iniciativa de fechar a rua, especialmente aos fins de semana (nos sábados tens policias que não te deixam circular acima de meio da D. Afonso Henriques e abaixo da praça S.João Batista).

    Quanto aos transportes públicos, não me irrita particularmente que ali passem, apesar de o fazerem sempre na bolina e de não respeitarem os pedestres. A TST e o electrico de Almada dividiram os destinos em Almada e não existem realmente alternativas à(s) grande(s) avenidas que “sulcam” Almada pelos lados, por isso têm mesmo de passar por ali. Mas, tenho de concordar contigo que a separação entre o “passeio” e a “pseudo-estrada” está mal delineada e ainda haverão muitos atropelamentos, infelizmente.

    O que mais me irrita são os pais dos meninos do Externato Frei Luís de Sousa que não deixam de levar os seus meninos de ouro de carro até às portas do colégio, quando nas ruas de trás existe uma porta que dá para o mesmo externato e podia perfeitamente funcionar como local de “carga e descarga” dos ditos meninos.

    Por isto tudo e mais algumas coisas, Viva Almada e Morte à ECALMA

  2. Loira says:

    Cá vao os meus dois comentarios:

    1 – Aquilo está mal sinalizado! Ainda na sexta-feira fui fazer a ecografia lá perto e estávamos lá a passar e cheios de duvidas se aquilo era estrada ou passeio, mas realmente estava cheio de carros, e avançamos! Já vi que erradamente! Os sinais devem mesmo ser do tamanho de bolotas! E mais, uma pessoa que raramente lá passe, está mais ocupada a ver se não leva com o metro em cima! :/

    2 – Um triciclo 159 euros????????????????

  3. artur couto e santos says:

    Por isso mesmo, criei o dístico “o passeio é para os peões”, que coloco diligentemente no pára-brisas de todos os carros estacionados em cima do passeio. Quanto à zona pedonal: a Câmara Municipal tem má consciência porque sabe que não há alternativas. Eu tenho que sulcar diariamente a Av. D. Sancho, às 7h30 e às 18h e é um inferno: filas intermináveis, carros estacionados em qq lado, putos a sairem da Emídio Navarro, arriscando-se a levarem com um autocarro, os utentes do Centro de Saúde sem sítio para atravessarem e todos os automobilistas, loucos, porque demoram o dobro do tempo a percorrer o trajecto habitual. Ir pela Cova da Piedade tb já não é alternativa – tudo encalacrado.
    Solução: um único sentido na D. Sancho e na Bernardo Francisco da Costa (um com sentido ascendente, outra, descendente).
    Como não há alternativas, a Câmara fecha os olhos à pomposamente chamada zona pedonal. Curiosamente, fá-lo aos fins de semana porque, durante a semana, tem funcionários da Ecalma a multar o pessoal.
    Quanto aos pais da Escola dos Queques: sei de meninos que têm direito a 4 cartões para carros – dois para cada pai, quando os pais estão separados, o que quer dizer que, por cada criança, pelo menos 4 carros podem circular na zona pedonal. Multipliquem pelos putos todos do colégio…

  4. […] Almada, uma cidade de Futuro (ou outro slogan qualquer que não me recordo agora) – Os comentários e observações a uma zona pedonal que não sei bem se o será. Nós em Dezembro antes do Natal em passeio pela rua já tinhamos constatado que esta zona pedonal…. não o é: Macacos sem Galho A zona pedonal de Almada e outros mitos urbanos […]

  5. Edgar Durão says:

    A zona pedonal de Almada é um mito… um dia ao ir á Telepizza descobri que não podia lá passar e apercebi-me que aquilo tinha mudado. Em Dezembro passado na véspera de Natal em passagem por umas lojas do comércio tradicional, quase ia sendo atropelado ali…. a chover os carros e autocarros aceleravam mais que sei lá, e com as delimitações clarissimas que lá estão… é claro!

    Enfim… é mais uma das belas coisas que a CMA nos oferece. Começando por um metro que nem sei como o descrever, até á falta de cuidado e zelo que se vÊ em Almada e arredores…. muita coisa devia ser mudada.

    É inconcebivel aquele parque central estar todo vandalizado, o metro ter cortado almada ao meio, a falta de cuidado e arranjo nos zonas vezes, estradas, e caminhos que deveriam ser promovidos por esta câmara.

    É com tristeza que digo que moro na margem sul, conheci esta zona practicamente quando entrei na FCT no Monte em 1998, e infelizmente de dia para dia… só piora.

    Não existe uma alternativa credível ao raio da ponte para quem vai de carro….. quando chega o verão todos os caminhos se entopem…. O IC20 desde 2003 que deixei por lá passar. Além de esburacado, está sempre entupido de carros.

    Mas mais que criticar tudo isto, critico mais aqueles que tanto mal dizem da Costa e mal vêm o primeiro raio de sol, entopem esta zona ! Por favor haja paciÊncia.

    Mas pronto nem tudo é mau ! O parque da paz é um excelente projecto, de louvar até.

    Apesar de tudo isto “as gentes de Almada” devem estar contentes… a avaliar pelo número de votos que a “nossa” “presidenta” recolhe devem ser certamente felizes.

    • Edgar, como morador de Almada desde 1983 posso garantir que a cidade não está pior de dia para dia. Longe vão os tempos em que Almada era uma cidade triste e cinzenta, mero dormitório de Lisboa onde era bem provável arriscarmo-nos a sermos assaltados e/ou espancados em qualquer noite da semana em que nos atrevessemos a sair à rua.

      Quanto à Costa, de facto é verdade… passa-se o ano a ouvir os Lisboetas mandar bocas à “margem sul”, como se de uma lixeira se tratasse, mas assim que brilha o Sol, upa que se faz tarde: tudo para a Costa durante três ou quatro meses de trânsito absolutamente infernal.

      Mas o que fazer? Temos as melhores praias da zona de Lisboa :-)

      • Edgar Durão says:

        Pedro,

        apesar do que tu dizes continuo a achar a zona muito confusa… pouco clara, e com algumas zonas algo degradadas.

        Acabei agora de vir da 1ª conservatória do registo predial ali no meio, e continuo a manter minha posição… o parque são João Baptista (penso que é este o nome) todo grafittado, sujo, estacionamento caótico… pelo menos a vista do parque relvado junto ao Pingo Doce estava linda ás 10 da manhã.

        As ruas muito irregulares, fizeram imensas alterações de trãnsito, tudo assim muito pouco comunicaco, não explicito… nem sei bem.

        Pelo menos vi uma senhora hoje lá no meio que me parecia estar a fiscalizar os carros que entravam para a dita zona pedonal.

        Já na Zona onde moro – Monte de Caparica – acho que tinha imenso potencial se fosse mais cuidada. Infelizmente tal não aconteceu, e os preços das casas cairam, estando agora acessiveis a muito mais pessoas de outros leques que em termos de responsabilidades, ou comportamentos muitas vezes humanos se podem não considerar.

        Temos aqui uma parque excelente (Filipa D’Água) que está meio abandonado. Ao que percebi e me contaram foi devido a um diferendo entre o construtor da urbanização e a CMA em quem deveria assumir o jardim. Pelos vistos agora já é da CMA dado que já por aqui vi os funcionários a cortarem ervas e canas, mas se dantes ainda o construtor cuidava da relva, e regavam, agora isso não vejo – também confesso que já nem reparo muito devido á minha falta de interesse.

        Enfim, uma coisa é certa, a nossa zona pode ter perto algumas zonas com mau aspecto, mas nunca fomos assaltados nem nos roubaram nada (excepto uns lençois que curiosamente me tiraram do estendal esta semana (mas deixaram as molas :) ). Enfim… é a vida.

        Tive oportunidade de expôr isso num estudo que foi feito pela UAL (acho…) porta a porta, e que me parece ter sido encomendado/uma parceria com a CMA de forma a saber o pensamento das “gentes” destas zonas.

        Enfim… mas isto é em todo lado – A Alta de Lisboa (muito chique como dizem) padece de problemas ainda maiores que esta zona, ou zonas como Amadoras e Cacém têm imensos problemas também… as cidades dormitório são mesmo assim.

        Mas continuo a reconhecer que esta zona tinha imenso potencial, se fosse um pouco melhor aproveitada.

        Criem zonas verdes, arranjem algumas zonas degradadas, e acima de tudo arranjem uma outra solução para a ponte (eu vou de comboio, mas desespero nos dias que tenho de ir de carro a Lisboa na hora de ponta)

        • Perfeitamente de acordo, eu só disse que não acho que Almada esteja cada vez pior… acho que está muito melhor do que há 20 anos atrás, mas o avanço não se faz sem solavancos e sem dúvida que algumas das decisões tomadas com a construção do metro são um pouco estranhas…

          • Edgar Durão says:

            É … o Metro é de facto um investimento estranho que originou decisões estranhas.

            Apesar das suas derrapagens, e controvérsias, confesso que até dá um certo jeito para os estudantes, e possibilita a maior mobilidade no concelho.

            Até aqui tudo bem…. até acredito que seja viável chegar até á Costa. BAsta descer ali da FCT, e passar pelas Costas de Cão, Pêra, e enfim.

            Agora o que me faz confusão é alguns sonhos anunciados: Fiquei boquiaberto no outro dia quando li as palavras da nossa presidente, em anunciar naqueles folhetos municipais que me colocam na caixa do correio, que queria que o Metro chegasse a Alcochete, e eventualmente a Lisboa, tornando Almada uma zona complementar a Lisboa (arco ribeirinho…será? ).

            Se já para pôr estas linhas a funcionar as derrapagens foram o que foram, com expropriações e pareceres de entidades a sobreporem-se umas ás outras. Chegar a Alcochete tudo bem… é ambicioso. Demorará imenso mas pode eventualmente acontecer no futuro.
            Agora túnel subterrãneo para Lisboa ? OI ??!?… então e o Comboio e a ligação MTS – Fertagus serve para quê ? Aumentem lá as carruagens do comboio nas horas de ponta que isso é que dava jeito.

            Acho que não há necessidade de reinventar as coisas.

            MAs pronto, é como tudo. Desde que seja para melhorar estou completamente de acordo.

            Já agora alcatroem o IC20 que a época de praia está a chegar, e os turistas vão apreciar.

            • Nelito Carrapito says:

              foste um dos enganados que comprou casa na urbanização da Filipa d’Agua, sem saber que o bairro (que foi arranjado junto à estrada para dar um aspecto diferente ao que se escondia por detrás) era o pica-pau amarelo!

              a expansão do MST até à Moita, Barreiro e numa fase ainda anterior à Costa da Caparica já está à muito avançada assim como a ideia do tunel Trafaria/Algés já foi proposta discutida e inviabilizada.

  6. jane says:

    Cidade ecólogica , é um cacete! A o centro da cidade é só betão e repuxos de água. Não há passadeiras marcadas e nem ciclo via , aquilo é só degraus de granito(bom para os dias de chuva) para ir a “praça de Taxi” que fica de frente a praça da Conservatória ao lado do Mini-preço.
    Não há limite entre o passeio e a estrada , se a pessoa não toma cuidado o auto-carro ainda faz a pedicure.Os bancos são a berma da estrada , ainda não descobre o pôrque?!
    O dinheiro somente é empregue alí no Centro de Almada , por que as ruas , vielas e becos restantes metem nojo, sujos , velhos , feios.

  7. antonio says:

    Não sou de Almada e não conhecia a zona até ter de me deslocar até lá há poucos dias. Fiquei a saber agora que aquilo é uma zona pedonal. Fiquei muito confuso, não sabia o que era estrada e passeio, achei aquilo perigosíssimo e admiro-me de não haver (se é que não há)constantemente ali acidentes.

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