Dicionário de fumadores

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Não sou nem nunca fui fumador, nem nunca quis fumar, nunca me interessou. Não sou purista da saúde, nem evangelista dos malefícios do tabaco. Mas nunca tive o menor interesse na coisa. Aliás, contrariamente ao que se passou com a maioria dos putos, mesmo aqueles que acabaram por não dar em fumadores, nunca sequer experimentei um cigarro. Não tenho a menor das ideias a que sabe, como se sente, o que é.

Mas convivo com fumadores, como todos convivemos. E eu não sou anti-tabaco. Não sou anti-tabaco como não sou anti alcóol, marijuana e diria mesmo, ecstasy, coca ou seja o que for que queiram snifar, beber, ingerir ou absorver rectalmente, para parafrasear o George Carlin. Desde que NÃO ME CHATEIEM!

E aí está um problema! Chateiam-me!

É que, enfim, se ser do Sporting é uma doença que afecta apenas um determinado tipo de pessoas (sportinguistas), fumar pode afectar qualquer um… Tanto fumava o Fernando Pessoa, como fuma o Fidel Castro; tanto fuma o Zé Cascalho, estivador no porto de Setúbal, como dá umas passazinhas o Professor Doutor Moreira Cunha e Sá, Excelso Anatomista e Director Daquela Coisa Grande com Camas e Janelas.

Ou seja, não quero que ninguém se ofenda com as minhas generalizações – embora tenha a certeza que muita gente se ofenderá, porque ofender-se com o que os outros dizem é um modo de vida – mas já não passava mais um dia sem escrever o meu dicionário de fumadores, espécie que é quase tão ou mais enfuriante que um Automobilista Português.

O Fumador Elevatório

O Fumador Elevatório é uma espécie extraordinariamente abundante nos centros populacionais mais densos, como são exemplos os bairros suburbanos. Quando mais altos os prédios, maiores as possibilidades de enconrtar um Fumador Elevatório. Ao que parece, fumar um cigarrinho é um acto tão compulsivo, que este espécime é totalmente incapaz de esperar 30 segundos para acender o seu Marlboro.

Mesmo quando apenas dois ou três andares separam este animal da rua, ele não pode deixar de dar as primeiras passas no seu cigarrinho dentro do espaço exíguo do elevador. Que se lixe quem vem atrás… respirar uma boa nuvem de fumo não deve fazer mal nenhum e muito menos incomodar.

Da próxima vez que subir – não descer, subir – com um destes espécimes num elevador, dispa-se rapidamente até ficar todo nu, explique ao seu educado vizinho que vai tomar banho assim que chegar a casa e embora a banheira esteja a um minuto de distancia, você já não pode esperar mais para se começar a despir… se por acaso tiver um sabonete consigo, peça-lhe que comece a lavar-lhe as costas.

O Fumador Restaurantista

Eis um assunto controverso!

Quando se toca em “fumar ou não fumar em restaurantes” todos os fumadores são “Fumadores Revolucionários Oprimidos” (ver mais à frente). Aqui não é o prazer de um cigarrinho depois do café que está em questão. Não, nada disso! Em questão está a LIBERDADE! Sim, esse valor humano por tantos desejado e tão poucas vezes alcançado. A liberdade de lançar baforadas para cima da refeição dos outros, a liberdade de empestar o ar com cheiro a tabaco, a liberdade de apagar beatas em cascas de melão e restos de baba de camelo! Precisamos de manter viva a chama da Liberdade!

O fumador restaurantista não tem vergonha. Aliás, os fumadores raramente têm vergonha, sejam de que tipo forem. Mas este espécime não tem qualquer problema em misturar o seu vício sujo com a comida das outras pessoas.

E quando se chama a atenção o que acontece? “Estou no meu direito!”

A velha frase, que faz de tantos Fumadores verdadeiros Che Guevaras. O ideal nestes casos é exibir bem perto do FR uma das suas funções corporais… Pegue numa taça de mousse de chocolate já comida e urine lá para dentro. Aaaaah, que alívio, não é? Soube tão bem… se alguém se queixar é fácil: “Estou no meu direito! Sabe-me tão bem uma mijinha depois do café, como a si um cigarrinho!”

Os Fumadores de Concerto

É proíbido fazer 520 coisas em concertos. E no entanto toda a gente faz. Tirar fotografias, levar garrafas de água… fumar.

Tirar fotografias ou beber um golinho de água do luso não faz mal a ninguém (ok, as garrafas podem servir para arremessar, mas isso é outro assunto), agora os cigarros… como dizer isto…

Será possível que alguém precise de fumar ao ponto de não aguentar duas horas de um concerto? Será possível que seja assim tão difícil que valha a pena transformar o recinto numa espécie de câmara de gás, a maioria do público com menos 3 ou 4 brônquios e correr o risco de pegar fogo à alcatifa, matando rapidamente milhares de pessoas?

E mesmo que essas pessoas decidam que vale a pena correr o risco de causar um acidente grave numa sala a abarrotar de pessoas… o que as fez decidir que EU quero correr esse risco? E já sei qual é a desculpa… É que “um concerto sabe muito melhor com um fuminho”.

A solução passa por levar um cesto, uma daquelas tradicionais alcofas, cheia com estrume bem fresco. Pode sempre justificar-se dizendo que “um concerto sabe muito melhor com um cheirinho”.

Os Fumadores Inadiáveis

Trinta segundos? Não posso! Vinte… Dez segundos?? Não! Não! Não pode ser, não posso esperar, tenho que fumar AGORA!

São os fumadores inadiáveis… São aqueles que quando toda a gente está a pensar em sair do cinema, do autocarro, do avião… eles estão a pensar em acender um cigarro.

Ainda vamos no corredor de saída do Coliseu ou na porta levadiça do Cacilheiro e já estamos a receber na tromba as primeiras baforadas de três ou quatro cigarros… estamos a 40 metros da rua, do ar livre, do espaço aberto, mas os fumadores inadiáveis são assim mesmo: inadiáveis! O cigarro não pode esperar.

Da próxima vez que assistir a esta triste cena roube os cigarros ao que estiver mais próximo de si, vê-lo-à imediatamente desatar a correr atrás de si em desespero. No fim entregue-lhe os cigarros com uma expressão de piedade nos olhos.

Os Charutistas Unidos

O charuto foi uma forma que alguns povos arranjaram de enrolar merda com uma folhinha de tabaco para poderem espalhar o seu cheiro nauseabundo por uma distância maior. Nem mais, nem menos.

Os crónicos fumadores de charuto em público, são, quase sempre, uns bardamerdosos pomposos com cara de cu, a quem só apetece dar bofetadas. Há quem aprecie o seu charuto em casa com os amigos, há quem tenha o culto do charuto, enfim, há coisas que ninguém compreende, mas que continuam a atingir certas pessoas e por nós… tudo bem.

Mas na maioria dos casos, quem se estira na cadeira do restaurante após uma boa refeição e acende um charuto que vai levar 45 minutos a fumar, só pode ser um palerma sem qualquer respeito por absolutamente ninguém, a não ser por si próprio. O cigarro incomoda, irrita e cheira mal… o charuto é ainda pior, cheira horrivelmente, causa ardor na garganta e nos olhos e pode despoletar crises de dificuldades respiratórias muito rapidamente, como eu próprio já tive oportunidade de comprovar.

O que fazer?

Dirija-se ao agressor, arranque-lhe o charuto da boca e diga-lhe: “Lembra-se da Monica? Tem 10 segundos para se por na alheta antes de eu lhe mostrar como ela gostava de usar os charutos do presidente.”

É vê-los correr.

Se não resultar, abra-lhe a cabeça com pancada.

Os Cachimbeiros de Espaços Fechados

Fumar cachimbo não serve para nada a menos que se seja o Popeye.

Se ao fumar um charuto se está a tentar dizer: “sou um novo rico, uso pulseiras de ouro e conduzo um BMW topo de gama em que nem sequer sei meter a quinta”, quando se fuma um cachimbo, normalmente tenta fazer-se claro que se é um intelectual, mentalmente evoluído, que já leu todos os horríveis livros do Saramago e já se aturou todos os filmes inaturáveis do Oliveira.

Claro que muitas vezes, as pessoas que são, não precisam de tentar mostrar que são, pelo que os que fazem grandes esforços para se mostrarem ser… geralmente… não são. Compreendem…

O cachimbo não cheira tão mal como o charuto, mas cheira pior que o cigarro. Mas tem um problema acrescido! Como é “elegante” e “evoluído” fumar cachimbo, os Cachimbeiros tendem a não ter qualquer puder em fumar em qualquer lado, mesmo que seja uma sala de provas num pronto-a-vestir, onde o ar vai ficar irrespirável durante 6 horas.

Se conhecer um Cachimbeiro que teima em fumar em espaços fechados, prepare uma caixinha com um pouco de água e detergente da loiça. Quando apanhar o Cachimbeiro com a arma do crime atrás das costas (gesto habitual, para dar ênfase ao ar doutorado), despeje um pouco da sua mistura no cachimbo.

Fique a ver o espectáculo de bolinhas de sabão, quando ele se engasgar.

Os Fumadores Revolucionários Oprimidos

Muitos fumadores pertencem aos FRO. Sinceramente, de todas as atitudes dos fumadores, a que mais me irrita é esta. Ao que parece, pedir a alguém que apague o cigarro na mesa ao lado num restaurante ou no banco da frente do autocarro é estar a atropelar as suas liberdades pessoais.

Interditar o fumo em edifícios públicos ou locais fechados, hospitais ou repartições, restaurantes e transportes públicos é um atentado imoral contra os direitos dos fumadores.

Os fumadores a quem se pede por favor que não fumem estão a aser espezinhados pelas forças reaccionárias do fascismo que querem tolher-lhes o individualismo e o direito à expressão! O fumador que não pode sacar de um cigarro e lançar sobre todos as suas núvens de fumo está a ser sujeito a repressão política do mais alto nível, comparavel apenas àquela levada a cabo por Salazar, Pinochet e, sei lá, talvez mesmo Hitler!

Se alguma vez tiver o azar de pedir a um FRO que apague o seu cigarro, prepare-se para ouvir um discurso que poria em vergonha qualquer dirigente anarco-sindicalista sul americano! Prepare-se para ouvir falar de direitos básicos, liberdades individuais e como o FRO também não vai “a sua casa, dizer-lhe o que fazer” (isto, claro, independentemente de toda a cena se passar num local público onde você está a ser forçado a respirar uma coisa que não quer).

Sinceramente ainda não encontrei a melhor maneira de lidar com os FRO, sobretudo porque eles estão por todo lado e não há nada mais fenomenalmente irritante do que uma pessoa que nos está a incomodar ficar ofendida quando lhe pedimos que pare de o fazer.

Em caso de se deparar com uma destas situações, e se estiver para isso, dê um aviamento de porrada no cabrão, provavelmente não é boa pessoa de qualquer maneira e assim pode ser que perceba o que é realmente ser reprimido.

Conclusões

Todos conhecemos fumadores. Há muitos fumadores. O problema com o fumo é que é uma coisa externa. Não fica com o fumador, assim como o alcóol fica com o alcóolico ou a pancada fica com o tipo que levou a tareia… o fumo vem para cima de nós.

E é aí que a proverbial porca torce o proverbial rabo. Todas as pessoas fazem coisas que guardam para a sua privacidade, sejam relacionadas com hábitos ou higiene pessoal, tentamos que os nossos gases e odores não sejam públicos… a excepção vai para quem fuma, cujo gás do tabaco carburado é não só público, como é forçado às outras pessoas. Sejam conscientes, ninguém quer impedir ninguém de fazer nada, mas também ninguém quer ser obrigado a fazer coisas que não quer.

Caso contrário temos molho!

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9 comentários a “Dicionário de fumadores”

  1. xana says:

    provavelmente tb terás atitudes que irritam as outras pessoas.
    fumar é um vicio é uma doença.
    vê lá se tb não fogem de ti como o diabo foge da cruz se tu espirrares pra cima das pessoas.

  2. Brain says:

    Agora a questão está resolvida em boa parte dos locais mencionados. Antes a educação e urbanidade obrigavam-me a não fumar em muitos locais porque sabia que poderia incomodar os outros, agora sou livre de fumar na praia para cima das velhinhas, nas esplanadas que são propriedade dos fumadores, em qualquer parte onde quiser, e os desimfectados têm o direito de se esconder no interior dos cafés. Bendito verão, o ar livre é nosso. Interdita a permanencia de não fumadores no exterior eh eh eh. Quiseram a guerra assim seja.

  3. Macaco says:

    Guerra? Mas… de que vale lutar contra um exército de debilitados incapaz de correr 100 metros?

  4. Paulo Martins says:

    Fumadores uni-vos.
    Sou fumador e acho que devemos respeitar os não fumadores. Mas também acho que devemos ser respeitados.
    Por cada cigarro que fumo pago uma bestialidade de imposto. Este imposto devia dar para eu ter também locais para fumar.
    Penso que deviam de existir cafés, bares e restaurantes para fumadores e não fumadores.
    A unica forma de pressionar os proprietarios, para que estes pressionem quem de direito, é frequentar cada vez menos os locais de não fumadores. Optar sempre que possível, frequentar sítios de fumadores.
    Comprar tabaco em tabacarias, pois se não posso fumar também eles não deviam poder vender tabaco.
    Aquando das idas a restaurantes, comer e vir embora sem tomar café, sobremesas ou digestivos. A conta fica substancialmente mais leve e danifica o lucro do proprietário. Deixemos para os não fumadores a responsabilidade de manter esses sítios abertos.
    Os locais que hoje em dia sobrevivem com dificuldade ou se adaptam ou fecham.
    Resumindo se querem o meu dinheiro, façam por isso.

    Paulo Martins

    paulolacm@gmail.com

  5. Macaco says:

    Paulo, obrigado pelo comentário respeitador e bem escrito. Bem melhor do que os ocasionais fumadores que por aqui passam a chamar-me palhaço.

    No entanto devo lembrar que os não-fumadores são a esmagadora maioria dos portugueses, além de que agora é-nos muito mais fácil passar horas em cafés e restaurantes, pedindo mais um café ou uma fatia de bolo, porque o ambiente está muito melhor.

    Eu por mim, aumentei o meu tempo de estadia e consumo.

  6. Joaquim J. R. Ribas says:

    Caro Macaco,
    Sou cachimbeiro desde os meus 14 anos e… já tenho 60 e aposto que ainda sou capaz de lhe ganhar numa corridinha de 100 metros… e nunca serei tão profundamente um falso intelectual como o senhor demonstra ser.
    Para si, apenas deixo este comentário que me fica após leitura desta sua longa apreciação dos fumadores:
    – A educação e o saber estar já vem de longe… ao contrário da lei que apenas tem meses!
    Concorda ou não que é aqui que residem quase todos os constrangimentos da sociedade de hoje???
    … talvez seja melhor (embora mais trabalhoso) enveredar por aqui a sua luta…
    J R

  7. Caro Joaquim, o meu artigo tem cinco anos… é muito anterior à lei. Eu não tenho luta nenhuma, apenas escrevi um texto divertido e provocador que, pelos vistos, continua a provocar.

    Boas cachimbadas e corridinhas!

Responder a Afonso

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