Enter Kwamecorp

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Não é particularmente fácil falar do que eu quero falar sem falar de imensas coisas de que não me apetece falar. Digamos portanto que é uma espécie de terreno minado, sendo que as minas estão mais ou menos assinaladas e eu posso saltitar por entre elas, não deixando no entanto de correr o risco de me desequilibrar e cair em cima de uma delas.

No início do mês de Outubro deixei de trabalhar no SAPO e pouco depois, deixei de ser funcionário da PT. Ao fim de 12 anos, demiti-me para aceitar uma nova oportunidade, noutra empresa (já lá vamos).

Doze anos de qualquer coisa é muito tempo de qualquer coisa. Doze anos de vida, de um emprego, de pessoas, de locais, de hábitos e rotinas é mesmo muito tempo. E precisamente por ser tanto tempo, não se pode definir de forma particularmente sintética.

Trabalhar no SAPO não foi uma coisa, foi muitas coisas, foi ser um gajo que fazia uns banners, gravava umas páginas do browser para fazer correcções no código (e tentava não ter muita comichão com isso), foi desenhar sites e aplicações, ícones, logos e ilustrações, escrever código em barda, foi fazer lobby para que a equipa de design deixasse de estar no editorial e passasse para o técnico, foi ajudar as pessoas a integrar-se, a ter melhores oportunidades, a aprender coisas novas, foi fazer cenografia e decoração, desenhar o Codebits, fazer t-shirts e merchandising, foi até cozinhar nuclear tacos e fazer umas boas centenas de pessoas sofrer.

Foi uma série de outras coisas menos boas, como não podia deixar de ser, alguns conflitos com pessoas, frustração com projectos, cansaço, desilusões ocasionais e várias outras coisas que fazem parte de qualquer relação que se tenha na vida, seja pessoal ou profissional.

O SAPO era uma direcção da PT (e ainda é…), e como tal começou aos poucos a ser afectado pela crise que a empresa sofreu nos últimos dois anos. Apesar de termos uma cultura própria e uma espécie de barreira defensiva daquilo a que vulgarmente se chama a PT Profunda, não havia maneira de ficarmos incólumes ao que se passava naquilo que era, de facto, a nossa empresa.

Mas eu não vou aprofundar-me em pormenores obscenos sobre o que se passou e continua a passar na PT, porque não sou esse tipo de gajo e também porque quando eu senti que o nível de conforto tinha descido o suficiente para mim, fiz o que achei que devia fazer e saí. Também não me armo em herói, saí porque me surgiu uma excelente oportunidade na altura certa.

Enter Kwamecorp

kwamecorp

Numa série de coincidências simpáticas (em que o Facebook foi instrumental), re-encontrei-me com um velho amigo que já não via há anos. Bebemos umas imperiais e conversámos sobre o passado e o presente, o trabalho, as empresas e as famílias. Ele, designer, actualmente na Kwamecorp, um colectivo de designers e engenheiros com escritórios em várias cidades, equipa em Lisboa e vários projectos e clientes de peso; eu, na PT com um outlook algo cinzento.

Apenas alguns dias depois, surgiu o convite para fazer umas entrevistas. Já tendo recusado algumas oportunidades ao longo dos anos, precisamente por estar bem onde estava, desta vez senti que era algo completamente diferente: não só eu já não me sentia bem onde estava, como a KC me parecia uma empresa de excepção para trabalhar. Fiz as entrevistas, que correram muito bem e o resto é um bocadinho desta história que ainda está no início.

No dia 2 de Novembro comecei a trabalhar na Kwamecorp. O meu primeiro dia começou às 4 da manhã, hora a que acordei para me preparar, pegar na mala e partir para o aeroporto de Lisboa. Viagem para Munique, depois para Zurique, uma semana de user testing de um projecto que depois seguiu, connosco, para Palo Alto, para uma semana de sessões de trabalho, wrap-up e entrega. Passei duas semanas em viagem, a absorver o novo trabalho, aprender nova metodologia, conhecer novos colegas e a ajudar no que podia.

Foi a chamada entrada a pés juntos.

Entretanto já estou em Lisboa, a trabalhar no escritório da Rua Garrett, num espaço porreiro, cheio de pessoas completamente doidas. Mesmo o meu tipo. O trabalho é bestial, a cultura da empresa é genuína e infecciosa e acordo todas as manhãs com vontade de vir para o trabalho. Com jet lag, todo fornicado dos cornos, mas com vontade de vir para o trabalho.

Com 42 anos e depois de 12 anos na mesma empresa, esta foi uma mudança significativa na minha vida profissional e agora que a abracei, tudo parece renovado, do trabalho no dia a dia, até à simples deslocação, com o regresso às viagens de cacilheiro e ao ambiente do Chiado.

A vários níveis, agora parece-me claro que estava mesmo a precisar de algo assim. Não sei exactamente o que vai acontecer a seguir, mas sei que vou estar com atenção para ver. Aqui fica ao início de um novo capítulo e à curiosidade sobre o que se passará nos próximos 12 anos.

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9 comentários a “Enter Kwamecorp”

  1. Boa sorte! Estou a precisar de fazer o mesmo…

  2. Alex says:

    Pedro, revejo-me muito no texto que escreveste. No meu caso foram 15 em vez de 12. Estive mais na PT profunda do que no Sapo (apesar de ter saltado por lá várias vezes). Estou agora também numa nova etapa que me está a dar uma pica do caraças. Tenho é pena de não estar com algumas pessoas, como tu, que fui conhecendo no caminho! Boa sorte e só espero que os nossos caminhos se cruzem de novo!

  3. hugocardoso says:

    Toda a sorte do Mundo neste novo projecto. Pessoalmente identifico-me com muito do que escreveste, embora numa realidade diferente. A mudança pode de facto ser positiva, basta que tenhamos a mente aberta a novos desafios.

    Sair da zona de conforto pode não ser fácil mas motiva-nos e força-nos a ser melhor.

    Grande abraço

  4. Rita Duarte says:

    12 anos é muito tempo, é muita história, mas os capítulos chegam ao fim e começam outros. Fico muito contente por ti, acho que mudaste para melhor, pareces-me motivado e feliz e toda a gente merece sentir-se assim no seu local de trabalho. Muita sorte e bom trabalho!

  5. Impecável. Inspirador e motivador.

    E quem faz o que gosta, nunca precisa mesmo de trabalhar, não é assim que diz a frase?

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