O Estado e a Nação

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Cresci a aprender que dantes tinhamos uma coisa má: a ditadura, e que agora temos uma coisa boa: a democracia. Aprendi que votar é importante, que participar é necessário e fui aceitando a ideia de que um dia, pela força do voto, viria alguém governar e melhorar o país. Não que o país não esteja melhor em inúmeros aspectos, nos últimos 40 anos, claro que está, mas acho que todos partilhamos um bocadinho a sensação de que há muito por onde melhorar nos mais diversos sectores e que parece que há uma espécie de barreira invisível que se tem adensado nos últimos anos.

Quando passei pelos 20s e até pelos 30s e percebi que nada é nunca tão simples como se consegue descrever num parágrafo, lá no fundo, confesso, continuava a viver aquele mito Sebastiânico de que nós, portugueses, sempre gostámos. A história daquela pessoa, que se calhar até podemos ser nós, que no último minuto surge, de lado nenhum, qual Nené saído do banco para marcar o golo da vitória.

É claro que é sempre mais agradável imaginar que um dia vai haver mudança e felicidade e luz solar 300 dias por ano, do que fazer alguma coisa por isso, dirão. Eu diria outra coisa: é mais fácil acreditar que as coisas vão melhorar um dia, do que enfrentar a dura realidade: nada é como parece ser e já ninguém tem interesse na mudança.

Já há algum tempo que comecei a perceber que as coisas não são nada do que parecem. Acho que comecei a desconfiar aí por volta de 2001. Eu sei, é muito exacto, mas recordo-me desse momento com alguma clareza. Mas este tipo de desconfianças não são confortáveis. Não queremos começar a olhar-nos ao espelho e a ver um teórico da conspiração; não ajuda nada que, se conversarmos com as pessoas sobre isto, a maioria fique desconfortável e comece a afastar-se e a girar a ponta do indicador na têmpora.

Mas de facto, hoje em dia já não tenho grandes dúvidas que nada é aquilo que tenta aparentar ser. Mas o que é que eu quero dizer com isto?

O que eu quero dizer com isto

Os portugueses votam cada vez menos e é objectivo dos partidos do poder que os portugueses votem cada vez menos. Quanto menos votam, mais a votação de afunila e mais fácil é prever a movimentação do poder legislativo. Prever e até mesmo, programar.

Não é que reduzir drasticamente a abstenção tivesse particular impacto, mas podia causar alguma imprevisibilidade. Assim, não são criadas iniciativas relevantes para levar as pessoas a votar; assim, estamos bem.

Os partidos tornaram-se então, não um veículo de alguma ideologia social que trabalhe para o bem comum, mas uma plataforma de negociação de contratos, contrapartidas e alguma legislação. E isto é perfeitamente normal. Foi sendo feito e está em plena fase de consolidação. Não vale a pena gritar e agitar os punhos.

Agora não há assim muito a fazer. Continuar a votar é importante, porque, à parte de um meltdown civil completo, é a única forma dos indivíduos se exprimirem em relação ao poder aparente. O problema é arranjar forma dos indivíduos se exprimirem em relação ao poder efectivo.

Um governo, actualmente, existe para manter equilíbrio social e para tornar o país atraente para investidores. Isto significa que a infraestrutura tem que ser moderna, a mão de obra tem que ser especializada mas barata e a população tem que estar em paz. E pode até ser discutível se, sendo o país um excelente alvo para investidores diversos, isso não é vantajoso para a população.

Pode ser, mas isso não faz com que exista esse objectivo ou que o mesmo seja prioritário. Até porque se a população autóctone se torna demasiado evoluída em resultado da riqueza crescente do país, a parcela ‘mão de obra barata’ cai e depois é preciso abrir a torneira da imigração, o que, geralmente, faz desequilibrar a parte da ‘população em paz’.

É, de facto, um fino equilíbrio. Como um parasita que precisa da vítima para se alimentar, mas não com voracidade tal que a mate, negando assim o seu próprio sustento.

Portanto, em Portugal, agora as coisas funcionam: temos uma infraestrutura excelente, uma mão de obra especializada mas barata e não há sinais de guerra civil. O governo vai espremendo, espremendo e a malta vai aguentando e aguentado. Entretanto, felizmente, há muito futebol para ver, comentar e discutir; até mesmo para indignar muito mais do que impostos, cortes ou desemprego. Há muito show de cantoria na TV, muita Casa do Segredo, muita celebridade a fazer plásticas. E há muita dúvida, muito sentimento de inferioridade que faz dos portugueses gajos que achem muitas vezes que não são grande coisa. Somos pequenos, somos humildes, não convém sonhar muito alto e se o fizermos, que seja no futebol, que é a única coisa em que nos incentivam a pensar e, vá, pelo menos o melhor jogador do mundo é nosso!

Entretanto, multimilionários por trás de enormes empresas vão orientando as coisas em função das suas mais-valias. Sejam submarinos, Bancos ou privatizações diversas – as coisas mais visíveis e evidentes, que até se permite que saiam no jornal – ou centenas de outras movimentações que dificilmente nos chegam aos ouvidos e que provavelmente totalizam muito mais. E certamente que qualquer destes negócios está tão longe da nossa compreensão, como simples cidadãos, que somos pouco mais que formigas financeiras, perante gigantes de outro planeta.

Na maioria da comunicação social, a informação é manipulada, colocada, removida, alterada, seja para promover ou distrair. Sob a forma de notícias, reportagens e artigos de opinião. Mas claro que toda a gente se choca quando se sabe que o Facebook fez uma experiência social com os seus utilizadores enquanto todos os dias somos ratos de laboratório numa gigantesca “experiência social”.

Pronto, já cheguei certamente àquela parte do post em que a maioria de quem leu até aqui está a torcer o nariz a pensar que eu perdi de vez o juízo, sou um teórico das conspirações, que não posso mesmo acreditar no que estou a escrever e que não passo de um pessimista.

Eu sei. Não é um tema fácil de abordar sem parecer maluco. E depois fica ainda mais difícil se eu disser: o objectivo é mesmo esse. Como no 1984, de George Orwell e o Ministério da Verdade e a sua Novilíngua. Enfim… ficção? Afinal não é assim tão complicado torná-la realidade, basta não ser assim tão óbvio.

Mas não há hipótese, quando se ultrapassa aquela linha de loucura aparente, tudo o que dissermos só nos enterra mais, aos olhos de quem ainda acredita que não são uma mão cheia de pessoas que mandam nos países, que as empresas têm mais poder do que os partidos, que estes são todos corruptos e iguais uns aos outros, que quem tem interesse no bem comum não está em nenhum lugar onde possa promovê-lo e que um dia vai deixar de haver injustiça e corrupção e que vamos todos ter uma educação do caraças e ser modernos e ricos e felizes.

Nada disto invalida, claro, que existam muitas pessoas honestas, profissionais e idóneas em todas as instituições, media e empresas. Nem sequer estou a tentar dizer que existe um enorme império do mal a gerir o nosso mundo: simplesmente, já passámos por isto muitas vezes antes e acabamos sempre a bater com a cabeça na História mais ou menos da mesma maneira: arranja-se uma forma de governo aparente, por detrás da qual acaba sempre por se descobrir um poder efectivo e as populações ou se deixam enganar, ou não se enganam, mas aceitam o status quo, ou se rebelam e acaba tudo em sangue. E depois repete.

Também é absolutamente inegável que o nosso país evoluiu nos mais diversos indicadores sociais e económicos, nos últimos 40 anos. Já não somos um país de analfabetos, com altos índices de mortalidade infantil e infraestruturas do século XIX. Mas o que se sente no ar agora é que voltámos ao corporativismo de outrora e que as pessoas que promoveram essa evolução ou desapareceram, ou mudaram de intenções e a população está num estado de estupor padronizado, incapaz de reagir ou sequer de desejar reagir.

A minha preocupação agora é: o que é que eu ainda posso fazer e o que é que eu posso ensinar aos meus filhos sobre o mundo que lhes permita fazer algo melhor? Ou seja, quando o pessimismo é confirmado e se torna realismo, a única forma de o contrariar é a acção.

Que acção?

Sinto que educar os miúdos sobre o bem comum, a natureza, o valor da arte e da cultura sobre o materialismo é muito bonito, mas provavelmente também um caminho para eles crescerem vendados para a realidade. Esses valores são importantes, mas não suficientes.

Por outro lado, povoar a juventude deles com imagens obscuras de senhores de fato em reuniões secretas para decidir como melhor extorquir dinheiro para si próprios sem qualquer preocupação pelo bem comum, o ambiente ou a paz, parece-me desnecessariamente assustador e não oferece nenhuma estratégia para lidar com isso que não a alienação.

E quanto a nós, adultos, o que podemos fazer por nós próprios? Votar? Eu acredito nisso, mas eu cresci a acreditar nisso, porque nasci em ’73.

Atribui-se ao Mark Twain a frase: “Se votar fizesse diferença, não nos deixariam fazê-lo”. Pondo de parte o facto de que muitas frases atribuídas a Twain não são de Twain, uma coisa parece certa: há algo nesta frase que me apoquenta… é que parece fazer cada vez mais sentido.

Nos Estados Unidos foram recentemente atribuídos a empresas alguns dos mesmos direitos que as pessoas. É quase como dizer que uma empresa e uma pessoa são a mesma coisa. Isto implicou que as empresas passassem a ter direito à liberdade de expressão que se traduz, grosso modo, em poderem dizer o que quiserem nas embalagens dos seus produtos. Claro que não se esticam tanto como virem dizer que Coca-Cola cura o cancro, até porque estão nos EUA e por lá rapidamente receberiam uma class action suit por publicidade enganosa, mas aproveitam, obviamente, para bloquear coisas como as tentativas que andam a ser feitas por diversos grupos de cidadãos de ter avisos nos rótulos sobre o conteúdo exagerado de açúcar nas bebidas.

Isto para dizer o quê? Que votar fez pouca diferença neste caso. Os legisladores que aprovaram o direito à liberdade de expressão das empresas não o fizeram pelo bem comum do povo americano, fizeram-no porque foram pagos pela indústria alimentar para o fazer. E nisto não é teoria da conspiração, o lobbying é uma profissão reconhecida nos States. Agora se isto é feito às claras, o que será feito às escuras?

Entretanto, em Portugal, parece que começa a sugerir-se que se legisle o lobbying, como actividade reconhecida.

Precisamos de estar cientes de como as coisas funcionam e de nos deixarmos de ilusões; se o Ministro da educação está a dar cabo da escola pública ou da vida de professores e alunos e o PM vem elogiá-lo pela forma como está a lidar com os problemas, não podemos achar que é tudo incompetência e falta de vergonha; por alguma outra razão a coisa é como é: qual é essa razão?

É difícil que alguma coisa seja uma mera bronca, um pequeno descuido ou uma enorme asneira. As coisas acontecem porque é suposto acontecerem. Não precisa de ser uma enorme conspiração e é claro que há excepções, claro que há imprevistos e confusões, mas não nos podemos deixar enganar assim tão facilmente.

Mas divago… devia estar a falar sobre acção, só que não é fácil falar disso. Porque eu próprio estou à nora, sem saber o que fazer e honestamente, convencido de que a tarefa é hercúlea, senão impossível.

Talvez o mínimo que se possa fazer seja isto, ou algo nestas linhas:

  1. Questionar
    Devemos questionar o que vemos, ouvimos e lemos. Será que é mesmo assim? Estamos a deixar-nos levar demasiado pelo imediatismo da partilha de informação sem verificação, do impulso de mandar o link para os amigos, de uma notícia escabrosa que rapidamente se verifica ser falsa. Estamos mais fáceis do que nunca de manipular porque acreditamos em tudo, pior: quanto mais obscena for a notícia, mais depressa acreditamos!
  2. Votar
    Votar continua a ser importante, parece-me. É importante, acima de tudo, dispersar o voto. Quando se fala em votar nos pequenos partidos, não creio que o objectivo deva ser o de eleger um deles, mas sim o de eleger o máximo possível de deputados de diferentes partidos. Aumenta-se a probabilidade de alguns deles não serem mais uma engrenagem na máquina (mesmo que inadvertidamente).
  3. Educar
    A educação é a força da civilização. Por alguma razão os Nazis queimavam livros, por alguma razão, os extremistas não querem as mulheres nas escolas. Se questionamos (ver 1), devemos partilhar as nossas dúvidas e pôr mais pessoas a pensar. Sem paranóias, mas com realismo e o mínimo possível de ingenuidade. E ensinar os nossos filhos, com esse realismo e sem drama, nem conjecturas excessivas.
  4. Diversificar
    A conformidade facilita a manipulação. Em vez de passarmos o tempo a falar de futebol e a ver a Casa dos Segredos, a seguir a moda mais recente na roupa, nos cabelo e até na comida e bebida (hello, hamburgers artesanais e gin tónico!) e a fazer tudo o que os media nos ditam que é o que devemos estar a fazer, que tal fazer o que nos apetece? Cultivar a individualidade enriquece a sociedade, caso contrário, mais vale sermos todos robots.
  5. Denunciar & actuar
    Devemos falar disto, discuti-lo, manter as ideias presentes. Será este texto demasiado paranóico? Será que não é paranóico o suficiente? Como é que podemos manter estes assuntos vivos, olhar para além do óbvio, ler por trás das manchetes, ouvir por trás dos discursos dos líderes? Como podemos organizar-nos para fazer alguma parte, dar algum contributo, dentro dos nossos serviços, escolas, empresas?

Finalmente: ando a escrever este artigo há várias semanas, já teve várias formas, já foi refeito, reescrito, reorganizado e posto a marinar por diversas vezes. Este é um assunto demasiado complexo para a minha capacidade de análise. Não entendo de geo-política, economia, sociologia, nem de assuntos relacionados o suficiente para escrever um ensaio como deve ser sobre o assunto.

Além disso, é-me extremamente difícil organizar o meu pensamento neste tema em frases com sentido, em que consiga expor o que creio ser evidente, sem entrar nem em territórios que desconheço, nem em extrapolações lunáticas. Fiz o que pude com as ideias que tenho na cabeça.

Agradeço a discussão e contributo que possam dar, se tiverem tido fôlego para ler este texto. Mas sobretudo, interessam-me sugestões de como intervir, agir e contribuir para melhorar. E olhem:

Stay positive

Stay positive!

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9 comentários a “O Estado e a Nação”

  1. sofia says:

    muito bom pedro…

    confesso que sinto e partilho estas tuas palavras e, também, já por diversas vezes me deu vontade de escrever (quase gritar) uma coisa assim do género.

    muitas vezes a sensação de impotência, de ir contra a maré, de desafiar o status-quo, o estado estúpido e adormecido de tantos que encolhem os ombros é tão grande… mas mesmo assim ainda acredito que cada um de nós pode e faz a diferença.

    já agora, e em relação aos miúdos…
    “educar os miúdos sobre o bem comum, a natureza, o valor da arte e da cultura sobre o materialismo é muito bonito, mas provavelmente também um caminho para eles crescerem vendados para a realidade. Esses valores são importantes, mas não suficientes.”
    educar e formar… incutir-lhes um espírito crítico, construtivo, curioso.
    acho que é importante (e pode parecer muito old-fashioned) dar o exemplo. fazer as coisas que acreditamos, agir e defender esses valores, de forma consistente… conversar com eles, fazer, mostrar, por vezes até explicar que o que fazemos pode não ser o que fazem “os outros”, a maioria, mas há (uma boa) razão de ser assim.

    acredito que há muita gente que se sente um bocado como peixe fora d’água que sente que isto não está bem mas não sabe o que fazer, como agir … mas que ainda se importa.

    bem… não me vou esticar mais porque isto de escrever de rajada depois de ler o teu post é capaz de ser mais com as emoções que propriamente com os dedos no teclado.

    a tarefa é hercúlea mas não é impossível :)

  2. João Patatas says:

    E que tal redesenhares o logo do Sapo, hum? Ou já nem isso és capaz de fazer decentemente?

  3. Bacalhau says:

    O mundo está longe do perfeito! Muito bom este post. Obrigado.

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