Doenças e hospitais

No domingo passado, o Tiago começou a ficar doente. Teve febre e fez diarreia. Não estávamos muito preocupados porque no dia anterior, a Joana tinha tido também um pico de febre e no dia seguinte já estava melhor.

A diarreia dele piorou um bocado na segunda, mas a febre desapareceu e na Terça já estávamos prontos para o mandar para a escola, mas ele queixava-se muito de dores de barriga e foi duas vezes í  casa de banho e portanto, pelo sim pelo não, ficou.

Durante o dia esteve bem, mas chegada a noite piorou. Vomitou o jantar e fez diarreia várias vezes até ir dormir.

Mas dormir não seria pací­fico. Começou a acordar para ir í  casa de banho por volta da meia noite e meia e í s quatro e meia, í  terceira vez que se levantou, começou a fazer sangue.

Às sete, sexta vez que ia í  casa de banho, já só fazia sangue e não era pouco. Sempre cheio de dores, todo retorcido – se teve metade das cólicas que eu costumo ter, coitado.

Marquei, assim que possí­vel, consulta com a pediatra, mas como ela só tinha vaga í s 15, levámos o Tiago ao posto para os meus pais o verem.

Não estava desidratado – tivemos sempre o cuidado de o fazer beber um pouco de água quando ia ao wc, mas os sintomas indicavam que devia ir ao hospital para ser visto, de preferência por médicos que não tivessem a responsabilidade acrescida de serem avós do paciente.

Fomos então para o Hospital Garcia de Orta pela primeira vez desde o nascimento da Joana. A verdade é que entre três avós médicos e uma pediatra, nunca levámos os nossos filhos ao hospital, até agora, mas também nunca nenhum deles tinha tido nada digno dessa visita.

Pelas histórias que ouço, esperava o pior. Foi, então, uma surpresa.

O hospital Gracia de Orta foi absolutamente impecável. Demos entrada na urgência pediátrica, esperámos um pouco após o que fomos chamados para a triagem, onde uma enfermeira fez várias perguntas, pesou o Tiago, mediu-lhe a temperatura e a tensão e mandou-nos esperar noutra sala.

Passado um bocadinho, chamaram o Tiago para a consulta onde foi observado e nós demos o historial todo do que se tinha passado desde domingo, incluindo uma foto que eu tinha tirado do tal sangue que era a única coisa que o pobre do miúdo conseguia fazer desde meio da noite.

Deram algumas bolachas e sumo ao Tiago, que não comia há mais de 14 horas, para ver se ele aguentava e tentou-se obter uma amostra das fezes o que não foi muito fácil, apesar dele ter ido várias vezes í  casa de banho. Estive sempre com ele a tentar ajudar e lá se conseguiu qualquer coisa para ir para análise.

Entretanto, ele queixava-se cada vez mais com cólicas e já só andava de um lado para o outro ao colo.

O Tiago ainda foi visto por uma outra médica, que me pareceu ser a chefe de serviço e posteriormente por um cirurgião. Todos foram impecáveis com o miúdo, observaram-no de alto a baixo e explicaram-nos cuidadosamente o diagnóstico e o tratamento.

Fomos finalmente para casa perto da uma da tarde, o Tiago ainda vomitou duas vezes e depois caiu no sofá, exausto e dormiu três horas.

Quando acordou, foi directo para a casa de banho e, para nosso alí­vio, nem sinal de sangue.

Confirmava-se então que tinha uma gastroenterite filhadaputa que lhe irritou o intestino ao ponto deste descamar e sangrar. Nas horas que se seguiram comeu um pouco e recuperou alguma da cor que havia perdido nas 24 horas anteriores. Dormiu bem e tem continuado a sua recuperação desde então até hoje, sexta-feira em que já anda aos pinotes e gritos pela casa a brincar com a irmã.

Anda voltámos ao hospital, para ele ser reavaliado, mas não havia grandes dúvidas de que estava em franca recuperação. Fartou-se de brincar com os médicos, no que foi correspondido.

Pensei um bocado antes de escrever este post e acabei por decidir fazê-lo por duas razões: primeiro porque para outros pais, pode ser importante saber que mesmo na presença de sangue nas fezes (ou mesmo, apenas sangue), não vale a pena entrar imediatamente em pânico: há gastroenterites agressivas o suficiente para causar isto e um post destes pode sempre servir de referência para outros que possam vir a viver a mesma situação. E segundo, porque quero deixar bem claro quão satisfeito fiquei com o serviço de urgência pediátrica do Hospital Garcia de Orta.

Todos os profissionais foram absolutamente impecáveis, dos médicos, í s enfermeiras e auxiliares. Os médicos de serviço chamaram um segundo e um terceiro colega para examinarem o miúdo e deram-nos assim, três opiniões sobre a situação, unânimes, mas sempre com a ressalva do que deví­amos observar que pudesse ser sinal de o diagnóstico ser outro.

Finalmente, foi-nos proposta a possibilidade dele ficar internado para observação. O que declinámos porque achámos que ele ficaria mais confortável em casa, onde seria observado de perto.

Sinceramente, no meio disto tudo, é insignificante, mas apenas lamento que seja tão difí­cil estacionar no Hospital. É um espaço tão grande e é tão difí­cil de arranjar um lugar que tive que deixar o carro num descampado a umas centenas de metros e depois trepar tudo até lá acima novamente, a pé.

E uma nota final, que não posso deixar de fora. Reparei que estava na sala de espera uma pessoa com uma criança com febre. Febre e nada mais. Foi-lhe administrado Brufen e esperou-se que passasse a febre.

O hospital até tem um póster na sala de espera que tenta explicar que situações são “de urgência”, mas isso não parece fazer diferença para estes e outros pais que ao mí­nimo sintoma normal das suas crianças, arrancam para as urgências.

Vão entupir as urgências, contribuindo para maiores tempos de espera e se calhar, mau serviço e pior, vão expor os filhos í s doenças dos outros.

Levar uma criança í s urgências para receber um medicamento que os pais podem administrar é um exagero que demonstra uma enorme falta de jeito dos ditos, honestamente. E compreendo que ter médicos na famí­lia me facilita a vida, porque qualquer dúvida que tenha pode ser esclarecida com um telefonema. Mas quando os meus filhos têm febre, eu sei o que fazer e acho que não é nada difí­cil de aprender e se mais pais tivessem mais tento na cabeça em vez de irem a correr para as urgências, talvez não fosse preciso esperar quatro horas, como í s vezes acontece¹.

1 – Cada caso é um caso. Há febres persistentes, muito altas, muito súbitas, sintomas de outras coisas, etc, etc. Mas acho que toda a gente sabe que há quem vá ao médico por estar constipado e as pessoas estão a desaprender de tratar as coisas mais simples como sempre se trataram, com as ditas sopas e descanso.

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8 comentários a “Doenças e hospitais”

    1. No meu caso, o Saúde 24 é o telefone de casa dos meus pais. Mas sim, o poster no hospital referia precisamente isso – ligue para o Saúde 24 ou vá a um centro de saúde primeiro.

      É claro que se estiveres a jorrar sangue… hospital é o melhor destino :)

  1. Como aviso, este post é muito bom. De facto, ver um filho nesse estado, só a fazer sangue é assustador.
    Ainda bem que ele já está melhor.
    Quanto ao último comentário, acerca do miudo com febre, acho que pode ser um bocado precipitado. O meu por exemplo, que tem a idade do Tiago (eu acompanho os vossos blogs há muito tempo – sou amiga da tatas) tem indicações expressas para ir para o hospital ao mí­nimo sinal de infecção. Trata-se de um miudo com problemas hematológicos e imunitários e por isso mesmo, nunca podemos deixar agravar ou esperar que passe. Poderia ser esse o caso desse miudo no hospital.

    1. Sara, evidentemente que casos especiais são casos especiais. Até podia nem haver nenhum miúdo na urgência apenas com febre, se calhar havia, se calhar não… o meu comentário não se aplica, como é óbvio a casos especiais com indicações especiais, aplica-se a casos normais do dia a dia que nós sabemos que acontecem e sabemos que há muitas queixas sobre o funcionamento das urgências e os tempos de espera, mas também que há muita gente que tem uma unha encravada ou um nariz a pingar e vão logo para a urgência de um Hospital.

  2. Ainda bem que o menino já está bem! Uma mãe fica sempre com o coração em farrapos quando vê os filhos doentes. Quanto í  criança com febre, poderia ser eu e a minha filha (não era, mas poderia ser…), porque já fui í s urgências com uma simples febre de 38º,com alguns vomitos e na triagem teve a cor verde (não muito urgente) mas como achei que ela estava com o cheiro do chichi e a cor diferente do “normal” achei melhor levá-la í s urgencias e não esperar até ao outro dia ao pediatra… ainda bem que o fiz porque ficou internada uma semana e passado 4 meses ainda está a ser acompanhada pelo hospital e pelo pediatra devido a um problema renal… e era apenas febre a 38º…

    Beijinhos e desculpa o testamento.

    Sandra

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