Não é assim que se diz? Ou a minha começa, onde acaba a dos outros? Ou é a mesma coisa?
Estamos no dia da liberdade e viva a dita. Tudo o que temos, bom ou mau, se deve em grande parte ao derrube do regime autoritário de extrema-direita que tivemos em Portugal durante 40 anos (ou 41, vá). Mas há uma coisa que nenhum golpe consegue deitar abaixo e essa coisa é a evidente ausência de civismo e respeito mútuo dos portugueses.
Está por todo o lado. O português quer saber de si próprio, depois quer saber dos que lhe são próximos (mas um bocadinho menos), depois do círculo alargado, como a escola em que anda, a empresa em que trabalha ou o bairro onde vive… mas um bocadinho menos. E por aí fora, em espiral descendente até se estar perfeitamente a borrifar.
Confrontado com a situação de prejudicar alguém para poupar a si próprio 2 minutos ou 3 euros, o português não hesita: que se lixe o outro.
Este é o português que estaciona em segunda fila para ir ao café, empatando todo o trânsito porque não está para estacionar 100 metros mais í frente. É o português que vai para a fila do supermercado enquanto a família vai aos corredores buscar compras e depois fica  a empatar a caixa, porque a esposa ainda não voltou com o óleo Fula. Este é o português que vai para o Multibanco fazer 15 operações e nem lhe ocorre fazê-las em conjuntos de 2 ou 3 enquanto vai fazendo pausas para deixar que outros se sirvam da máquina.
Como é que podemos esperar que isto mude? Com educação.
Mas primeiro, era preciso que as pessoas percebessem que educação não é “ir í escola”. Isto é educação que precisa de vir de casa, da sociedade, de quem dá o exemplo. Mas não vem, nem acredito que venha, num futuro próximo. Porque o que o português passa aos filhos é precisamente aquilo em que acredita para si próprio “tenho direito, não tenho deveres, estou aqui para tratar de mim, os outros que tratem de si”.
Não somos o país do “um por todos, todos por um”, somos o país do “olha-me este, querem ver?!” e do “espera aí que eu já te conto”.
Estou a escrever este post sobretudo porque ainda me dói a carteira no sítio de onde saíram hoje 15,54 euros.
Vivo numa zona central da cidade, muito perto da praça onde se realizam as grandes festas do PCP… perdão, da Câmara Municipal. Vivo perto de escolas, de um parque urbano, de um auditório, do McDonald’s, vários outros restaurantes e até do teatro municipal.
Consequentemente, em dia de evento, seja campeonato de andebol numa das escolas, de peça no teatro, ballet no auditório ou, como se passou ontem, festa do 25 de Abril com concerto e fogo de artifício, o meu bairro é um vê se te avias para estacionar.
Trata-se, porém, de uma zona de estacionamento para residentes. Para estacionar aqui (e isto é assim em toda a cidade de Almada), é necessário ter um dístico de residente, que se obtém na ECALMA (a EMEL de Almada) e que requer tanta papelada que eu tive que fazer mais do que uma tentativa para obter o meu.
Sem o papelinho, podemos estar estacionados í porta do prédio onde vivemos que não faz diferença, os senhores fiscais passam e multam e é se não passarem e bloquearem ou rebocarem o carro.
Mas, alas, em dia de festarola, tudo isto é arbitrariamente cancelado porque a zona fica completamente a abarrotar de carros de não-residentes e um gajo chega a casa por volta das 20:30 e depois de 10 voltas ao quarteirão está disposto a ir dar uma cabeçada no polícia de trânsito que anda por ali a controlar as festividades e perguntar-lhe “onde é que eu estaciono esta merda, oh senhor figura da autoridade?”
Mas o que é que isto tem a ver com civismo e respeito mútuo? Então esta gente, para vir festejar no centro da cidade, deixava o carro onde?
Que tal no gigantesco parque de estacionamento de três pisos que fica precisamente por baixo da praça onde se realiza a festa? Hum? Que tal?
Ah, não… isso não, porque paga-se. E assim como deixo o carro em segunda fila para ir beber a bica e quem quiser passar que se foda, vou também estacionar o meu carro aqui nestas ruas e quem cá morar que meta o carro no parque e pague 15 euros e tal por uma noite de estacionamento.
Claro que estacionar o carro no parque durante umas horas para assistir ao concerto sai muito mais barato, o parque nem é caro, porque esteve 18 horas no parque e custou 15 euros e picos, ou seja, uns 85 cêntimos por hora. Para assistir a 3 ou 4 horas de festarola, três euros e meio, vá, quatro. Para ficar a noite inteira porque não tinha lugar quando cheguei do trabalho, incha porco.
E claro, depois de dez voltas í s ruas até mais distantes de minha casa sem encontrar lugar, entro no parque e é só escolher. É que até dava para ir para lá jogar í bola no meio de uma largada de touros com um jogo de futebol a decorrer em simultâneo. E isto no segundo piso, há mais um para baixo e um para cima que é mais pequeno, porque tem o Pingo Doce.
Eu nem sou defensor das zonas para residentes, mas sou ainda menos defensor de que estas sejam opcionais nos dias em que os Srs. Autarcas querem fazer brilharete com as suas festividades bacocas. Ou existem, ou não existem.
E, acima de tudo, fico realmente sem grande esperança de vir a testemunhar um dia em que o portuga se preocupe com o próximo e não se importe de andar mais uns metros a pé, de esperar um pouco ou até mesmo de desembolsar dois ou três euros se isso significar que não vai empatar a vida a um monte de gente.
