Os profissionais

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Existe, na nossa sociedade, uma percepção de profissionalidade que está extremamente toldada por preconceitos compreensíveis: parte-se do princípio que um profissional é uma pessoa que desempenha determinada profissão e dela sabe mais do que nós.

Um profissional de saúde, como um médico ou um enfermeiro, sabe mais de saúde do que eu, mais de medicina, mais de socorrismo, biologia, anatomia, etc. Pomos a nossa saúde nas mãos desses profissionais, com confiança.

Bom, quando se precisa de um médico faz-se isso, quando não se precisa, normalmente são uns canalhas vendidos.

Já os advogados são sempre uns canalhas vendidos, mas também é neles que confiamos assuntos “da lei”. É a profissão deles e sobre ela são eles que sabem.

Creio que já estabeleci o meu “ponto prévio”.

Avancemos.

Quando se tem problemas em casa (e não falo de uma mulher que dorme com o carteiro, ou um filho adolescente drogado), há duas soluções. Ou fazemos nós próprios – aquilo que os franceses chamam “bricolage” e os ingleses, com o seu sentido prático “do it yourself”, ou DIY, como diminutivo; ou chamamos um profissional.

Grande parte das pessoas é da opinião que chamar um profissional é o ideal. Eu incluo-me nessa maioria.

No entanto, não consigo deixar de sentir algum cepticismo nesta matéria quando listo mentalmente os profissionais que já por cá passaram, senão vejamos:

Um veio partir a parede para mudar as torneiras do gás de sítio e abriu um buraco para a sala. Menos mau: reparou o buraco e de facto as torneiras do gás ficaram muito bem feitinhas.

Na mesma obra, um especialista de gás com as mais altas credenciais e experiência montou as tubagens todas. Forçou a saída do esquentador na chaminé de tal maneira que, uns anos mais tarde, depois de muito calor ali aplicado, a chaminé derreteu e os gases escaparam-se para a coluna, derretendo o esgoto que passa ali ao lado (que dizer do profissional que desenhou o prédio…?).

Lá veio um profissional reparar o esgoto.

Mais ou menos um mês depois, veio outro profissional reparar o esgoto porque o anterior fez um trabalho tão bom que não durou mais que 30 dias. Estes rapazes repararam muito melhor o esgoto e até arranjaram uma solução para a tiragem do esquentador, com uma peça especial com três bocas, que enfiaram na chaminé e onde ligaram o esquentador e o exaustor.

Claro que… dobraram as pontas da dita peça para a forçarem a entrar na chaminé, em vez de, sei lá, comprarem uma peça do tamanho certo.

Nenhum destes profissionais fechou o buraco que o primeiro abriu na parede para arranjar o esgoto. Porque, claro, isso é trabalho para outro profissional.

Quando o Tiago nasceu, o quarto dele precisou de ser alterado, porque tinha portas de vidro a toda a largura da parede que dava para o hall de entrada. Chamámos profissionais.

Estes construíram uma parede em pladur tão mal feita que consigo meter um dedo entre a dita e o chão, nalguns pontos. A ligação entre o pladur e a parede que já lá estava rachou menos de um ano depois e a porta que montaram é impossível de manter encostada, porque abre-se completamente, sozinha.

A dada altura veio cá outro profissional, canalizador, para arranjar várias coisas, nomeadamente a saída de águas do lava loiça, porque eu já tinha tentado e continuava sempre a pingar. Não só passou o tempo todo a criticar tudo e todos e a queixar-se do trabalho que as coisas davam como, quando se foi embora, eu tive que desmontar e remontar a saída do lava-loiça toda de novo tal era a merda que ele tinha feito (as borrachas estavam por fora, só para terem uma ideia).

Esse mesmo profissional, também montou a nossa torneira termoestática.

Já depois do Tiago nascer, um belo dia, a nossa torneira termoestática caiu da parede.

Chamámos um profissional para reparar o estrago: abrir um roço, meter os canos mais para dentro, reforçar tudo, remontar a torneira e recolocar os azulejos.

Acabou a mudar-nos a banheira e tudo, mas o trabalho ficou tão bem feito que, agora, uns meses depois, temos uma fuga de água para os dois andares de baixo que nos vai obrigar a pagar reparações aos vizinhos.

Ah, este rapaz também fez o favor de fazer as obras todas com a torneira termoestática atirada para um canto; digamos que a dita torneira não é só um pedaço de metal cromado, é um equipamento um pouco mais complexo que isso e com tanto pó, ficou a “bater mal”, chamemos-lhe assim.

Felizmente consegui reparar a torneira, com a preciosa ajuda do sempre presente Fernando Afonso. Dessa vez não chamei um profissional, já que se trata de uma torneira de 250 euros que já tinha passado por vários abusos à mão desses senhores.

Pensando bem, a pobre torneira deve ter sede de vingança. Talvez pudesse contratar um profissional… que pegasse nela (é pesadota), e desancasse essa cáfila de inúteis que são todos os profissionais que já passaram cá por casa!

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8 comentários a “Os profissionais”

  1. artur says:

    “O problema dos especialistas é que não sabem o que não sabem.” – in “O Cisne negro”, de Nassim Nicholas Taleb – um livro sobre o acaso.

  2. Fosga-se! Que martírio.

    Eu tenho exactamente o mesmo sentimento quanto a esses profissionais. Mais ainda, eu já trabalhei como carpinteiro, maçoneiro, trolha, canalizador (6KM! de tubos), mineiro(!), electricista, agricultor, etc, e tenho sempre a sensação que não têm a noção de como funcionam as coisas. Às vezes, não têm a calma para raciocinar e analisar o problema.

    Ainda se encontram bons profissionais, mas o problema é que não sabemos quem são…

  3. matamouros says:

    Do teu texto retiro que o Fernando Afonso é o homem a contratar em caso de necessidade de um “profissional”.

  4. Sem dúvida que é o homem a contaCtar, pelo menos :-)

  5. ze conde says:

    tb já tive esse problema. veio cá a casa um cromo que nem um buraco sabia fazer. desata a furar com a sua broca novinha á espera que ela saiba o caminho, resultado, tudo mordido á volta. agora preciso de dar aqui uns toques otra vez e tou com medo de me aparecer mais um sapateiro. eu até fazia mas estuque já é demais pra mim. conhecem algum PROFISSIONAL?

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