O meu sonho de uma grande superfície de seja o que for, é uma grande superfície deserta.
Temos um projecto para algumas mudanças cá em casa, que inclui as obras que vão, eventualmente, começar em breve e alguns móveis novos. Nada de espectacular: umas estantes para a sala, um roupeiro para por no hall e mais um móvel qualquer indefinido que está í espera do fim das obras para ser escolhido.
Como o Tiago já não demora muito a chegar e depois vai tornar-se mais complicado, decidimos que era hoje mesmo que íamos ao Ikea comprar os móveis novos. Pensei eu que, sendo Sábado poderia estar muito cheio, mas como é dia 20 e o pessoal anda teso, o caos não seria tão grande e poderíamos despachar-nos razoavelmente depressa.
Posso adiantar já que desde que saímos até que voltámos a casa, passaram cinco horas.
O Ikea estava em saldos e – não sei se apenas por isso, ou só porque sim – estava completamente cheio. Era praticamente impossível circular na loja e no armazém, onde centenas de pessoas com cara de idiotas passeavam em passo lento, olhando í volta, pesquisando não se sabe bem o quê, observando não se percebia bem quem. Demorámos bastante tempo no piso da exposição, mas queriamos ter a certeza que escolhiamos bem o que queriamos.
Depois de um bom bocado a pensar no assunto e a discutir as vantagens de cada um, acabámos por decidir-nos pelo risco: estantes pretas para a sala, em contraste com a mesa e cadeira brancas. Cool!
Mas, claro, as estantes pretas estavam esgotadas. Algo que só descobrimos quando chegámos ao armazém para as sacar da prateleira. Mais irritante ainda é a forma como o Ikea diz que algo está esgotado: “produto disponível brevemente”. Ou seja: não há agora. Ou seja: esgotou.
Depois de tanto tempo a decidir trazer estantes pretas, acabámos a trazer estantes cor de faia, vulgares de Lineu. Porém, as extensões de altura das estantes estavam também esgotadas e portanto… chapéu.
Felizmente, o roupeiro estava disponível em todas as suas pecinhas separadas e encontrámos também alguns dos outros objectos soltos de que precisávamos cá para casa. Mil euros mais tarde, deixámos os móveis pesados no serviço de entregas, o que me fez sentir ainda mais idiota: para que raio estou eu a optar por uma estante de faia, quando queria uma preta – que não havia – se depois me vão entregar isto a casa de qualquer maneira, porque eu não tenho nem meio de transporte adequado, nem paciência para me chatear com isso?
Para isso não seria mais prático terem simplesmente esperado pela chegada da estante que eu realmente queria e depois… terem-na vindo entregar cá a casa?
O Ikea pode ser muito barato e giro e fantástico, mas há certas coisas para que não tenho pachorra e me dão saudades de uma boa e velha loja de móveis.
É claro que nunca teria trazido três estantes com dois pares de portas de vidro cada uma e um roupeiro inteiro, também com portas de vidro, por mil euros – e mais uma data de cangalhada – por mil euros… não, provavelmente só o roupeiro teria sido mil euros, portanto parece-me que não me posso queixar muito.
Mas pelo menos eu gastei mil euros. A esmagadora maioria das pessoas que vi sair do Ikea, vinham com dois saquinhos de plástico com bibelots foleiros. E é por isso que aquilo está cheio: em cada 100 pessoas, 4 estão a comprar móveis e 96 estão a comprar argolas de guardanapos e um espremedor de citrinos.
E estes últimos 96 andam por lá a passear, lentamente, com a família toda atrás, a empatar a vida a toda a gente. E é assim em todas as ditas “grandes superfícies”.
Devia haver, nestas grandes lojas, um dia de compras. Tipo: “dia de compras a sério”. Um gajo só entrava se manifestasse a vontade de efectivamente comprar alguma coisa de jeito e í saída, tinha que ter efectivamente o carrinho cheio, caso contrário, pagava 300 euros para não ser parvo.
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