Macacos sem galho

O post da licença

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Comecei agora a aperceber-me que me faltam escrever uma série de posts: quase não tenho escrito sobre a Joana, não postei nada sobre o meu corte de cabelo e faltava escrever um post sobre a licença parental, para referência de quem possa estar a ser pai em breve.

De ano para ano, os direitos dos pais estão a aumentar, em Portugal. Não sei se é trabalho do actual Governo, se são projectos antigos a ser agora concretizados, mas é uma evolução interessante e importante já que, creio, o papel do pai é importante na vida dos filhos e no apoio à mãe e deve ser cada vez mais promovido e protegido.

Isto no país do macho latino em que ser homem é ter pelo no peito, beber cervejas e bater na mulher, é duplamente importante.

Quando o Tiago nasceu, a licença do pai era de cinco dias úteis a contar da data de nascimento e mais 15 dias de calendário no final da licença da mãe, ou seja, quatro meses mais tarde.

Agora, três anos depois, a licença do pai é de 20 dias úteis, seguidos, em caso de licença partilhada, de mais 30 dias de calendário após o final da licença da mãe.

As hipóteses são diversas e nem consigo descrevê-las todas porque – como toda a legislação que já li na minha vida – aquilo é difícil de interpretar.

Os 20 dias úteis estão divididos em 10 dias obrigatórios e 10 facultativos. Isto significa que a Lei obriga o pai a tirar, pelo menos, 10 dias de licença. Os cinco primeiros dias têm que ser gozados consecutivamente, após o nascimento, os segundos cinco dias podem ser gozados de forma não consecutiva, desde que nos primeiros 30 dias de vida da criança. E depois há mais 10 dias úteis para gozar.

O ideal é, evidentemente, gozar todos estes dias consecutivamente.

O formulário é só um e deve ser entregue na Segurança Social juntamente com cópias dos BIs de ambos os progenitores e do assento de nascimento da criança. Convém levar os originais para mostrar, só para que a/o funcionária/o da SS possa verificar a autenticidade dos documentos.

No formulário deve-se indicar os dias da licença exclusiva do pai (os tais 20 dias úteis) – e este “exclusiva” não significa que não seja concorrente com a licença da mãe, significa simplesmente que é uma licença que cabe apenas ao pai, mas que pode (e deve), ser simultânea.

Finalmente, aconselho a optar pela licença partilhada que é de cinco meses, com 100% do salário suportado pela Segurança Social (é para isto que servem os descontos¹). É possível dividir este tempo de diversas formas, mas eu não as sei explicar todas, a que escolhemos foi a mais simples: 4 meses para a mãe, seguidos de um para o pai.

Quem estiver a pensar fazer rapidamente scroll para a caixa de comentários desejando de fazer piadinhas sobre férias, pode ler a secção que se segue (e fazer piadinhas no fim na mesma, porque eu sei bem do que a casa gasta 0_O).

Ou não são pais, ou estavam distraídos quando o foram. Estar de licença estes 20 dias úteis que hoje terminam foi um dos períodos mais cansativos de toda a minha vida. E eu não sou responsável pela alimentação da miúda. Sei que me espera mais um mês, lá para o fim do ano, talvez menos agressivo por ela já estar mais crescida, mas provavelmente ainda com muito poucas horas de sono por cada 24 horas.

Ter o pai por perto para ajudar neste primeiro mês de vida é precioso para qualquer mãe e ter que tratar sozinha de um recém nascido quando existe a hipótese de ter ajuda é o equivalente a um castigo imerecido para qualquer mulher, por muito forte, independente e resistente que seja.

Um verdadeiro homem assume as suas responsabilidades. Não, não tem nada a ver com carros de alta cilindrada ou ter voz grossa e meter medo aos outros. Tem a ver com saber-se o que se faz, onde se é preciso e apoiar aqueles que dependem de nós de alguma forma.

Estou a fazer estas afirmações só porque sei que há muitos homens que não assumem as suas responsabilidades perante a família, porque têm mais que fazer – apesar de tudo, ir para o escritório é só cumprir a rotina habitual, sempre se manda umas bojardas com a malta e no fim do dia até se pode beber uma imperialeca antes de ir para casa².

Não é por acaso que a licença para os pais é parcialmente obrigatória: é que se assim não fosse, muito pai preferiria cem vezes ir trabalhar do que estar em casa a ouvir o bebé chorar e a mudar fraldas – é para isso que têm mulher, ou não?

A licença de paternidade não é uma folga – acreditem, é bem trabalhoso e com dois miúdos a coisa complica-se – é um dever, uma responsabilidade e é uma oportunidade de qualquer homem aprender algo mais sobre si, sobre a sua família e, porque não, sobre a vida.

Façam-se homens, tirem as vossas licenças, apoiem as vossas mulheres, aproveitem para conhecer os vossos filhos.

Notas (à lá Rui Carmo):

1 – Não falo aqui da epidemia dos recibos verdes porque nem sei que direitos – se alguns – têm essas pessoas; e não refiro o que se passa com as pessoas que são sócios gerentes, aparentemente alta aristocracia ao olhos do Estado, já que por menos 1% de descontos para a Segurança Social parecem perder todos os direitos de um trabalhador normal.

2 – Apenas apelo ao dever de qualquer homem de cumprir o seu papel de pai neste caso particular da licença – o resto da vida oferece muitas outras oportunidades – mas um gigantesco shame on you a todas as empresas e chefias que tentem de alguma forma impedir os seus funcionários de usufruir deste direito precioso.

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O Pond

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

O Pond foi lançado para beta hoje. Está aberto apenas por convite… cada convite é um linkzinho em que é preciso clicar para conseguir criar conta.

Vamos dar convites a quem se pré-registou…. e porque gostamos destas coisas, vamos dar convites aleatórios, aqui e ali.

Lembrem-se, cada convite apenas funciona uma vez, portanto só é válido para quem o apanhar primeiro :-)

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Insane in the membrane

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Whoa.

Este ano tem sido memorável, profissionalmente falando. As semanas passam a velocidades capazes de deslocar planetas de órbita e o esforço a que me tenho obrigado já há muito que ultrapassou os limites do razoável.

Desde o início do projecto que tentámos aquilo que poderia ser descrito como construir um foguetão capaz de ir à Lua, usando apenas um tubo de UHU, duas socas de madeira e um número do Spirou de 1976. As coisas já eram divertidas nessa altura, mas em determinado momento foi-nos sugerido que seria mesmo fixe se o foguetão fosse antes até Marte e tivesse espaço de carga para levar o Dodge Challenger, claro.

Evidentemente que nos foram dados mais recursos: três rolos de papel higiénico, uma mola de roupa e três palitos para os dentes (usados).

Projectos destes são verdadeiros desafios. E não estou a dizer que fomos megalómanos (ok, talvez um bocadinho), ou que estávamos mal equipados – na verdade, passei os últimos seis meses a trabalhar com a melhor equipa de profissionais que já conheci na área, hands down.

Não bastando, quando as coisas começaram a apertar, recebemos um apoio interno verdadeiramente épico com muita gente a ajudar e muitos deles a fazê-lo por gozo e por gostarem do projecto.

E eu gosto do projecto e muito – mais: eu uso-o todos os dias. E acreditem que há muitas maneiras de o usar. E a lista de coisas que ainda vamos fazer é vastamente superior à de coisas que conseguimos fazer no tempo que tivemos.

Só tenho um ligeiro problema: estou a atingir o limite da minha capacidade de resistência. Estou a começar a ter tonturas mesmo quando sentado, perdas de memória estranhas, confusões nocturnas entre sonhos e realidade. Há meses a fio que raramente durmo mais de 3 ou 4 horas por noite e quando tenho sorte, são seguidas.

Suponho que projectos megalómanos em que além de definir as coisas todas, de apresentar, reunir, defender e planear ainda faço, executo, desenho e implemento – mesmo que com um grande parceiro como foi o caso -  já não esteja tanto ao meu alcance agora que tenho 36 anos como estava há dez anos atrás.

Se calhar, para a próxima, deixo outra pessoa fazer os bonecos…

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Stranger in a strange land

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Às vezes apercebo-me que passo demasiado tempo rodeado de programadores.

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Um Comentário

Trabalho e descanso

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

O ano passado marquei as minhas férias de uma maneira um bocado avacalhada. O resultado foi que cheguei ao fim de Dezembro sem ter férias há vários meses, com o miolo feito em papa.

Este ano tive mais calma e cuidado ao planear as férias e espaçar os períodos para poder ter algum descanso regular.

Trabalhar sem parar, sem ter férias é uma imbecilidade inqualificável.

Fi-lo durante anos—aliás, nem fins de semana gozava—e aprendi essa importantíssima regra: não parar regularmente para descansar, pensar noutras coisas ou mesmo pensar no trabalho mas com um certo distanciamento é simplesmente contra-producente.

Dentro deste tipo de prática contam-se outras, como a já referida inexistência de fim de semana e ainda a famosa directa. Todas estas práticas reduzem a produtividade, aumentam a hipótese de erro humano e desmotivam as pessoas.

Não é portanto de espantar que sejam comuns no nosso país que adora aliar ideias parvas a falta de produtividade.

Assim como já trabalhei anos sem férias e sem fins de semana, também já fiz muitas directas a trabalhar.

Fazer directas não é nada de especial: a única coisa que é preciso é não adormecer. Mas fazer directas a trabalhar requer… bom, que se trabalhe.

O trabalho produzido durante directas é frequentemente de má qualidade e raras são as vezes em que o resultado justifica o esforço.

Já passei noites seguidas acordado a fazer renders 3D (numa altura em que ainda achava isso interessante) e no fim tudo foi inútil. Acabei por ir apresentar o trabalho ao cliente e ele afinal não tinha assim tanta pressa e queria umas modificações (querem sempre).

Esse trabalho, especificamente, foi feito para uma account de uma agência. Este tipo de pessoas—comerciais, accounts, gestores de produto—são os primeiros a exigir esforços extra e a colocar nos prazos uma importância que, no fim, eles não têm.

Nunca têm.

Já vi coisas feitas no prazo e coisas feitas tão absurdamente fora do prazo que mais pareciam anomalias espácio-temporais. Mas o que nunca vi foi o mundo acabar, empresas falirem, nem sequer pessoas serem despedidas.

Já vi também foi muitas directas à “menino”. Tudo homens de pelo no peito, que ficam ali a noite toda a trabalhar, a dar-lhe! Directa! Depois, quando o Sol nasce e o trabalho não só não está acabado como está cheio de problemas ou falhas, vão para casa dormir o resto do dia.

Isto não é uma directa, isto é só adiar a hora de ir para a cama. Se não ficarem acordados, pelo menos, 48 horas, não me venham com choradinhos.

Mas se ficaram, então sou quase capaz de apostar que não valeu a pena.

Acho que estas práticas servem mais para bonding (geralmente male, porque muitas vezes só homens são idiotas o suficiente para fazer directas), do que para adiantar trabalho. Combina-se uma directa, encomenda-se pizza e compra-se cerveja e o pessoal está ali a noite toda a conviver. Aproveita-se para se fugir da família, contar anedotas porcas e fazer concursos de arrotos.

Em contraste, o descanso é fundamental para manter uma pessoa em boa forma. O repouso é importantíssimo para atletas; não sou especialista, mas diria que faz parte do treino. Treinar sem parar acaba por dar em cansaço e lesões (e.g., jogadores do Benfica) e portanto o treino físico deve ser equilibrado com um descanso adequado.

O mesmo se aplica a qualquer esforço humano—a menos que se seja movido a drogas, como o Keith Richards. É por isso que convém dormir bem todas as noites, convém ter um fim de semana para limpar a cabeça e é conveniente marcar férias a intervalos regulares.

Descansar afina o cérebro, oleia as ideias. Muitas vezes, depois de uns dias de descanso, voltamos mais motivados ao trabalho. Descansar reduz o stress e ajuda-nos a ver as coisas de uma distância maior; torna-se mais fácil perceber quais os problemas importantes e quais os desprezíveis.

Às vezes, coisas que nos moíam a cabeça semanas a fio tornam-se problemas insignificantes quando os vemos ao longe, deitadinhos na areia da Caparica a ouvir as ondas bater no pontão. Shuá…

E depois, claro, temos filhos e tudo o que eu acabei de escrever perde todo e qualquer significado. O cansaço que nos parecia insuportável na semana passada, parece-nos agora risível, comparado com o que aumentou entretanto e certamente que acharemos que estavamos a ser uns mariquinhas, daqui a um mês quando tudo tiver quintuplicado.

Sabiam que os miúdos não param de correr? Quer dizer, páram, mas é quando querem saltar.

Como? Como é possível que não se cansem? Pois se eu estou meio morto! Capaz de adormecer de pé, ao Sol, equanto me batem com um bacalhau seco nas costas! Como pode ele continuar a correr e a saltar!?

A ideia de que tinha marcado férias com pés e cabeça este ano perde quase completamente o sentido no que ao tempo de descanso diz respeito.

Felizmente, as férias têm outras vantagens e, embora tenham uma relação directa com o trabalho, não se resumem a uma pausa neste. Felizmente, estar com a minha mulher e com o meu filho, por inacreditavelmente cansativo que possa ser, é também retemperador.

Não consigo parar de pensar no trabalho, até porque estou a meio de um projecto absorvente e todos os dias tenho obtido notícias do dito e respondido a mail quando há dúvidas sobre o que deixei preparado para os programadores, da minha parte. Mas estava-me a fazer falta passar umas horas a ajudar o Tiago saltar as ondas na Cova do Vapor e a deixar que o tal shuá ajude a dissipar aquela dúvida incessante sobre que tipo de munição levar na segunda-feira para o escritório…

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