Filho, aproximas-te dos 3 anos e meio cheios de coisas boas. A maneira como pronuncias a palavra “porcos”, quase com sotaque nordestino do Brasil, as histórias que inventas, a destreza com que completas puzzles, o à-vontade com que vais sozinho à casa de banho… só te faltava mesmo aprenderes a limpar o rabo.
E já que falo disso…
Filho, não sei como são os outros miúdos de 3 anos e quase meio, não quero estar a extrapolar, mas creio que será razoavelmente seguro assumir que praticamente todos serão uns grandes porcalhões, como tu, meu filho.
Não sei quem que percentil de porcalhice te situas, mas acredito que andarás na média e que, portanto, tudo isto será normal para a idade.
A qualquer altura e qualquer momento, excepto imediatamente após o banho, as tuas unhas andam pretas (das mãos e dos pés), os dedos cobertos de gordura, a boca decorada com restos de papa ou chocolate; o ranho, vais limpando ao antebraço.
As tuas camisolas estão ensopadas de nódoas diversas e as calças cobertas de terra, as solas dos sapatos brancas de pó, porque, claro, insistes em arrastar os pés, particularmente quando o solo está coberto de gravilha. As tuas meias cheiram a crime ecológico e nem me apetece muito pensar com que aspecto ficam o interior dos teus crocs quando os usas.
É claro que ajuda bastante que aches que é boa ideia, após comer uma torrada com manteiga, passar lenta e repetidamente as mãos no cabelo, que te pareça adequado lambuzares-te com colheradas de manteiga de amendoim directamente do frasco ou que sejas um indefectível praticante do nudismo doméstico.
O que vale, meu filho, é que na casa nova, vamos ter um terraço e nesse terraço, o papá e a mamã mandaram instalar uma mangueira. Achas que é para regar as plantas…? Pergunta-te, meu filho… já viste plantas cá em casa?
Só para futura referência: ontem, dia 3 de Junho de 2010, trocaste comigo os teus primeiros toques de bola – como se diz nesse mundo – cheios de intencionalidade.
No meio de alguns pontapés na relva, deste bastantes na bola, com força e direcção; recebeste – não mataste no peito, mas colaste na relva, leste o jogo e deste seguimento à jogada.
E, acima de tudo, em vez de olhares para o teu pai com um ar inquisitivo de “o que raio quer este gajo”, divertiste-te durante uns minutos a “jogar à bola”.
Ah e já agora: notei que, apesar de seres destro, os pontapés na bola foram todos com o pé esquerdo; quando te sugeri que chutasses com a direita, a coisa correu mal.
Quando fizeste três anos, o teu pai estava em Austin, Texas, a participar no South by Southwest Interactive de 2010. Antes de partir, combinámos uma festa de aniversário com a família toda, bolo, prendas e etc mas infelizmente isso não me fez sentir particularmente melhor por não estar cá no teu dia de anos “a sério”.
Estas coisas de fazer anos podem não significar nada de especial e ser quando um homem quiser, como o natal, mas a verdade é que acabam por ter o significado que lhes damos e é inegável que me custou um bocado não estar presente nesse dia em particular.
De resto, o que dizer de ti, agora com três anos?
Acho que a minha memória de como costumavas ser está a esfumar-se um pouco e portanto custa-me imaginar uma altura em que não eras como és agora, o que é estranho, porque ainda há pouco tempo eras completamente diferente.
Agora parece-me completamente natural que contes como a roda do Lightning McQueen rebentou e ele precisou que o Guido lhe montasse uma nova, do teu filme favorito do momento, o “Cars”, enquanto que há uns meses me contorcia para que dissesses as tuas primeiras palavras.
Acho normal que subas para um banco e me tires um café na máquina Nespresso e que corras desvairadamente pela casa, quando há apenas dois anos atrás desesperava porque nunca mais começavas a andar.
Já nem penso duas vezes quando vais satisfeitíssimo para a escola, com um dos teus brinquedos preferidos na mão (geralmente um Lightning McQueen), ou quando à noite me contas que a Inês agarrou o bebé (o teu urso de peluche inseparável), quando há ano e meio estava preocupadíssimo que não te adaptasses à creche.
Birras? Sem dúvida. Ainda ontem… fomos jantar com os teus avós e fizeste uma berraria incompreensível porque não querias lá estar… até te passar, claro; duas horas depois foi berraria porque não querias voltar para casa.
Mas as tuas birras são normais, não são nem mais nem menos do que esperávamos e não são o fim do mundo – pelo menos tento convencer-me que durante os próximos dois ou três anos vão acabar.
E como os teus pais não estavam bem contigo a crescer, a ficar mais independente, a precisar de menos atenção e vigilância constante, a tua mãe está grávida de cinco meses. Por agora as tuas reacções ao facto são de quase indiferença, tirando o ocasional mimo na barriga ou a ocasional necessidade de reafirmação de que o “Tiago é bebé”, portanto vamos ver como, daqui a quatro meses, dás as boas vindas à tua irmã…
Espontaneamente põe-se a saltar ora num pé, ora noutro e vai dizendo “esquerda, direita, esquerda, direita”. E bem, claro. Se se engana, pára para re-sincronizar a ordem das pernas.
Isto não eram coisas que se aprendiam lá para os 6 anos?
2.
Sabe já o nome de muitos animais, mas todas as aves são “águia careca”.
3.
De pé, no banco para chegar ao lavatório, antes de lavar os dentes: “Tiago forte! Tiago grande! Eu sou o maior!”
4.
No chão do quarto, a brincar, após soltar alguns gases audíveis: “Oh… o rabo tá triste.”. “O rabo tá triste, filho…? Porquê?”.
Tiago, até há poucas semanas atrás não dizias praticamente nada. Sim, não, papá, mamã… Hoje no banho viraste-te para mim e disseste: “Olha, pai, sou um peixe!”, deitaste-te de barriga para baixo na água a espadanar e acrescentaste: “O peixinho Tiago!”
O teu vocabulário foi dos 0 aos 100 em pouco menos de nada e passaste de algumas palavras para frases ou coisas tão complicadas como plurais – para teres uma ideia, existe uma senhora que foi candidata a Primeira Ministra ainda agora, chamadas Manuela Ferreira Leite, que não sabe usar os plurais (bom, nem sequer os géneros, mas isso é outra conversa).
Carro, carros, sinal, sinais, cão, cães, sapato, sapatos, enfim, tu percebes a ideia. Além disto, vais vencendo quase diariamente alguma dificuldade linguística como por exemplo os duplos ‘r’ que em “carros” ou “arranha” já te saem bem carregadinhos, como deve ser.
Se esta é uma das mais fantásticas evoluções das últimas semanas outra, menos divertida mas bastante prática, foi o desfralde.
Não foste forçado a andar sem fraldas, não tiveste que fazer nada nas calças “para aprender”. Simplesmente, começaste a usar fraldas que davam para puxar para baixo e rapidamente começaste a ir ao bacio quase todos os dias, depois todos os dias e finalmente, sempre.
Ao fim de mais uma semana ou duas de fralda nocturna, just in case, sem nunca a molhares, deixaste também de usar essa. E até agora: zero acidentes.
Portanto aqui tens: já falas bastante e já não usas fralda há mais de um mês (o teu pai anda muito atrasado nos posts), claro que já dizes “Benfica”, continuas a dar preferência a cogumelos e azeitonas, queijo, fiambre e pizza (de preferência com todos os ingredientes atrás mencionados) e o teu desenho animado favorito do momento é o carteiro Paulo (postman Pat), que vês umas vezes em português, outras em inglês, tentando cantar a música em ambas as versões.