Filho, aproximas-te dos 3 anos e meio cheios de coisas boas. A maneira como pronuncias a palavra “porcos”, quase com sotaque nordestino do Brasil, as histórias que inventas, a destreza com que completas puzzles, o à-vontade com que vais sozinho à casa de banho… só te faltava mesmo aprenderes a limpar o rabo.
E já que falo disso…
Filho, não sei como são os outros miúdos de 3 anos e quase meio, não quero estar a extrapolar, mas creio que será razoavelmente seguro assumir que praticamente todos serão uns grandes porcalhões, como tu, meu filho.
Não sei quem que percentil de porcalhice te situas, mas acredito que andarás na média e que, portanto, tudo isto será normal para a idade.
A qualquer altura e qualquer momento, excepto imediatamente após o banho, as tuas unhas andam pretas (das mãos e dos pés), os dedos cobertos de gordura, a boca decorada com restos de papa ou chocolate; o ranho, vais limpando ao antebraço.
As tuas camisolas estão ensopadas de nódoas diversas e as calças cobertas de terra, as solas dos sapatos brancas de pó, porque, claro, insistes em arrastar os pés, particularmente quando o solo está coberto de gravilha. As tuas meias cheiram a crime ecológico e nem me apetece muito pensar com que aspecto ficam o interior dos teus crocs quando os usas.
É claro que ajuda bastante que aches que é boa ideia, após comer uma torrada com manteiga, passar lenta e repetidamente as mãos no cabelo, que te pareça adequado lambuzares-te com colheradas de manteiga de amendoim directamente do frasco ou que sejas um indefectível praticante do nudismo doméstico.
O que vale, meu filho, é que na casa nova, vamos ter um terraço e nesse terraço, o papá e a mamã mandaram instalar uma mangueira. Achas que é para regar as plantas…? Pergunta-te, meu filho… já viste plantas cá em casa?
…na tua irmã, entenda-se. Bom, para já é aquele que mais me interessa.
Depois de quase um mês em casa, a Joana não te tem despertado particular interesse. Felizmente não reagiste mal à presença dela: a primeira semana foi mais complicada, é certo, houve birras quase todos os dias, mas agora que penso nisso, sinceramente, nem sei se foi pela Joana ter chegado, se pela Sónia estar fora.
A Sónia, a tua educadora, essa sim, a tua grande paixão, este de férias mesmo ali naqueles dias em que a tua mãe foi para o hospital e depois voltou com a tua irmã. Foi complicado para ti, mas assim que a Sónia voltou, as coisas mudaram.
Entretanto, o tempo foi passando sem que interagisses com a Joana: nem um toque, mas por outro lado, nenhuma agressão. O que também não é muito de espantar, porque não és particularmente agressivo; no entanto, como, quando te chateias, tens tendência para atirar com coisas (não sei a quem sairás… -_-’), estávamos meio apreensivos quanto à possibilidade da Joana vir a levar com algo contundente na sua permeável moleirinha.
Resumindo e concluindo: hoje, chorava a Joana – algo que faz fenomenalmente bem nesta idade – e tu explicavas que “não está tudo bem com a Joana”; perguntei-te o que estava mal e disseste-me: “tens que tirar a Joana do berço, para eu dar um beijinho”.
Tirei-a e tu, com todo o cuidado e delicadeza plantaste um beijo na bochecha gorducha da tua irmã.
Aos poucos, o Tiago habitua-se à irmã. Aos poucos, a Joana apercebe-se de que sabe gritar.
As coisas continuam ainda bastante calmas; ontem foi a primeira noite em que fui com a miúda para a sala, andar de um lado para o outro até às duas da manhã para que se acalmasse, enquanto a Dee aproveitava para dormir um pouco.
Já fica mais tempo acordada durante o dia e abre mais os olhos. Faz imensos sorrisos espontâneos, muitas vezes enquanto dorme e continua a ser campeã no desporto de sujar fraldas consecutivas, chegando por vezes às quatro.
Tem chorado mais do que na primeira semana e dá uns gritinhos que nunca ouvi o Tiago dar, muito provavelmente, coisas de menina. Mas de uma forma geral é muito calma e dorminhoca.
O Tiago ainda tem ocasionais crises de stress, mas no geral está mais adaptado. Acho que ajudou um pouco ter ficado em casa os últimos dois dias por ter estado adoentado.
Já deixa a Joana entrar no quarto dele e mesmo deitar-se na cama dele, sem grande alarido e de ocasionalmente, quando pousamos a Joana no fraldário ou quando lhe damos banho, vem a correr subir para cima de um banco a dizer “Quero ver a Joana! Quero ver a Joana!”.
Até ontem, dizia que eu era o pai do Tiago e que a mamã era da Joana, mas depois de algumas explicações nossas, ontem já descreveu todas as nossas relações em grande detalhe sendo o pai dele e da Joana e a mãe também de ambos.
Enquanto na primeira semana praticamente ignorou a mãe, agora já passa bastante tempo a brincar com a Dee e apenas creio que ainda estranha que a mãe não lhe possa pegar.
No geral, diria que as coisas estão a normalizar aos poucos.