Ando a ler notícias para sacar uma ideia para os Especialistas e dou com isto:
“Deco critica taxas no apoio ao cliente
A Associação Portuguesa de Defesa do Consumidor veio a público mostrar o seu desagrado quanto às taxas que as operadoras da rede móvel(…)”
Meus caros amigos… O Deco é um jogador de futebol Brasi… Português. Não creio que o Deco, que está a jogar Chelsea, se levante de manhã preocupado com as taxas que as operadoras de redes móveis aplicam por prestarem serviços de apoio ao cliente.
A DECO, por outro lado, Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, é capaz de andar preocupada com esse assunto, que diz respeito à sua área de actuação.
Quando escrevem as notícias, talvez vos pareça indiferente escrever Deco, deco ou DECO, mas não é. É por isso que as línguas têm regras que convém cumprir.
Na minha opinião, há três grupos profissionais especialmente responsáveis por defender a nossa língua, na sua forma escrita: professores de português, escritores e… porra! JORNALISTAS!
“A SAD encarnada viu ainda ser arquivado o processo disciplinar instaurado por agressão de um adepto a um agente da autoridade, e referido no relatório policial do jogo com os «axadrezados», em virtude de a ocorrência ter ocorrido fora do recinto desportivo”
Ainda bem que a ocorrência ocorreu, caso contrário, teria sido preciso rever a revisão da situação situacional.
Ao que parece, o Presidente (vénia) está preocupado e resolveu falar ao país. Ignorava o facto, mas como hoje em dia é quase impossível fugir a estas coisas, acabei por ser informado, a meio da tarde, da tal comunicação à Nação.
Ao que parece era sobre qualquer coisa a ver com o Açores, que aposto que ninguém quer saber. Não acho bem nem mal, é mesmo assim.
A única coisa que me aborreceu em tudo isto foi quando li uma notícia sobre o assunto, por sinal, da Agência Lusa que versa:
“Eu já disse o que tinha a dizer. Mas, se não considera-se que se estava perante um precedente muito grave para o equilíbrio de poderes dos órgãos de soberania, eu não teria falado”
Evidentemente, o que o Presidente (vénia, plié) quis dizer era “se não considerasse“. Mas hoje em dia, o português vai pela janela fora e já nem os media têm cuidado com o que escrevem, quanto mais com como o escrevem. Quem sabe, pode ser que um dia seja feito um acordo ortográfico para que “-se” e “sse” sejam intermutáveis à vontade de quem escreve e mesmo “ce” ou o fantástico e imaginário “çe” que tanta gente usa.
Enfim, há que fazer uma vénia (vénia, vénia, port de bras): o Presidente (ok, chega), diz “pugrama” e “pugresso”, o que esperavam do povo?
Á ummas bôuas semmanas que hando pâra escrevêr sôbre o “nouvo” acôrdo ourtográficoda língüa portuguêza, cômo dízem os pacótes de açùcár: oje é o dia!
Châma-se à nóssa lingüa, a lingüa de Càmões, mas noz não falâmos a lingüa de Càmões: falâmos umma versão modificáda déssa mêsma lingüa. O Càmões não escrevia “co”, em vêz de “com”; “üa”, em vêz de “uma” e “mui”, em vêz de “muito”?
Bôm, è verdáde que falâmos muito máis a lingüa de Càmões do que a de, digâmos, Gil Vicente. Esse gájo sim, éra um ganda maluco.
Mas a língua parece ser mesmo assim: antigamente escrevia-se “Marquez” e agora escreve-se “Marquês”; mas ainda existem pessoas que aprenderam a escrever “Marquez” e se insurgem quando, na carruagem do metro, o sinal luminoso indica que a próxima estação é “Marquês de Pombal”.
Bom, verdade seja dita, o dito sinal não tem caracteres acentuados, pelo que a paragem é, efectivamente “Marques de Pombal”, o que é uma coisa completamente diferente de Marquês.
Mas porque muda a língua?
Não faço a mais pequena ideia, para ser sincero. Não sou linguista e não me apetece minimamente pesquisar o assunto. Mas português sou e portanto posso dar a minha opinião como se da verdade absoluta se tratasse e ignorar a História, Literatura e outras disciplinas que possam ou não ser chamadas ao assunto.
Portanto, eu acho que a nossa língua evoluiu, ao longo dos séculos, de Gil Vicente para Camões, para nós, com o objectivo de se afastar dessa escarreta que é o castelhano.
Com o passar do tempo, o Português foi-se refinando e ganhando complexidade e tornando-se diferente do espanhol; ganhou uma identidade e riquezas próprias e dificilmente igualáveis por qualquer outra língua humana.
A nossa língua é bestial: flexível, cheia de sons diferentes que nos permite aprender outras línguas com relativa facilidade.
Os espanhóis têm apenas cinco sons de vogal: á, é, í, ó, ú. São as cinco vogais, todas acentuadas. Para um português se fazer entender em Badajoz, bástá qué acéntúé tódás lás vógalés qué díz e pronto: a espanholada entende.
Agora experimentem usar a nossa variedade de sons: mais nasalado, aberto, fechado, acentuado, arrastado: são três ou quatro sons para cada vogal, nas calmas. Esta variedade torna-nos flexíveis, permite-nos aprender pronúncias e dá cor à nossa língua.
Claro que o acordo ortográfico não tem nada a ver com a maneira como falamos, mas apenas com a maneira como escrevemos. No entanto o meu caso tem simplesmente a ver com isto: se andamos há séculos a fazer evoluir a nossa língua para que ganhe identidade própria e se afaste da raiz hispânica de onde nasceu… porque raio vamos agora adoptar um acordo que obriga a que o país de origem da língua se aproxime das suas ex-colónias?
Se, no nosso país, escrevemos “acção”, porque é que vamos passar a escrever “ação”? Não deveríamos preservar a identidade da língua, obrigando os restantes países de expressão portuguesa a melhorarem a sua grafia incorrecta?
Dizem que isto expandirá a língua, a tornará mais global. Não vejo como: as diferenças de pronúncia são vastamente superiores às diferenças de grafia e não me parece que passar a escrever “ótimo”, adotar” ou “fação” ajude de forma alguma a nossa língua a ser mais respeitada no contexto internacional.
Assim como não vejo a necessidade de escrever “dossiê”, “lóbi” e “stresse”.
Como argumento final, resta-me aquilo que mais me diz: o lado visual. Visualmente, a nova grafia é um nojo; as palavras parecem incompletas, coxas, como se fossem cair para o lado a todo o momento. Além de que parece erradas e geram confusão com outras palavras.
Por exemplo, sou quase capaz de apostar que alguns de vocês, ao lerem “fação”, acima, pensaram que eu tinha escrito mal “façam”, mas não, apenas escrevi “facção” de acordo com as novas regras. Mas a verdade é que “fação” parece “façam”, mal escrito. E “receção”, parece “recessão” mal escrito e não “recepção” de acordo com as novas regras.
O acordo não traz vantagens, irrita uma montanha de portugueses, induz em erro e parece ser apenas uma modificação da nossa grafia, sem significativa (se alguma), evolução. Para que serve?
Bom, para começar deve dar um jeitaço para vender livros escolares totalmente re-escritos. Mas tirando isso, não serve para a ponta de um corno. E se não bastasse tudo isto, o acordo original, de 91, foi assinado pela maior incongruência governativa que o nosso país já teve: Pedro Santana Lopes como Ministro da Cultura.
O Macacos sem galho declara-se assim, oficialmente, fora do acordo ortográfico da língua Portuguesa.
Disclaimer: este post é um exagero derivado aos nervos. “-mos”, existe, de facto, mas é raro, a menos que se tenha uma obsessão com sexo oral. Para mais informação, clicar aqui.
Porra, há coisas que são complicadas, mas há outras muito simples. Esta é uma das últimas: “-mos”, não existe! Não, não existe, não significa nada, não faz parte da nossa língua.
É levarmos, não é levar-mos;
É jogássemos, não é jogásse-mos;
É tratarmos, não é tratar-mos!
É assim tão difícil de lembrar? Eu ainda compreendo (pouco, mas compreendo), as pessoas que confundem o “sse” com o “-se”, porque ambas as formas existem na nossa língua e soam iguais, mas “-mos” não existe, portanto nem faz qualquer sentido que se use.
Aliás, ao fim destes anos todos, nem sei se esta é a primeira vez que escrevo sobre o assunto, de tal forma me irrita. Hoje em dia, com a proliferação dos blogs e respectivos comentários, a coisa só piora; ao ler um post sobre o jogo do Benfica com os alemães deparei com este comentário: “se jogar-mos tao bem como com a naval.talves leve-mos 4.”
Claro que falta um til em “tão” e talvez seja com “z”, mas… “jogar-mos?! “leve-mos”?!