O Tiago ainda não fez anos, mas como eu não vou cá estar no dia em que faz, decidimos fazer a festa de anos antecipada este Sábado.
No dia anterior descrevi-lhe com entusiasmo o que se passaria no dia seguinte e ele respondeu-me sem hesitação: “Tiago não quer festa”.
Se eu fosse supersticioso diria que era um sinal porque quatro ou cinco horas depois de me ter dito isso, acordou, 3:30 da manhã, todo vomitado.
Daí até quase de manhã vomitou mais cinco vezes.
A mãe mudava-lhe a cama enquanto eu o limpava e tentava acalmar. Depois de um vómito caía à cama que nem uma pedra. Na última crise já não havia lençóis e acabou por adormecer em cima de um resguardo daquele impermeáveis, sobre o colchão.
Acabou por dormir de manhã, até às 10:30 e daí para a frente esteve bem. Acabou mesmo por comer bolos e sandes e gelatina na sua festa e não voltou a vomitar nem a dar sinais de estar enjoado.
Mas não se pode dizer que tenha estado entusiástico, embora tenha adorado as prendas, estava visivelmente exausto da noite que teve e não deu muita confiança, especialmente ao primo Gabriel, que lhe deu uns empurrõezinhos como os que ele lhe costumava dar aqui há uns meses atrás decretando imediatamente que onde estivesse o Gabriel não estava o Tiago, apesar das tentativas dos adultos para que eles se entendessem. Haverá tempo para isso quando ambos forem mais crescidos, certamente.
O saldo final foi positivo, mas se o Tiago tivesse passado uma noite normal, tenho a certeza que se teria divertido mais.
A noite de Sábado para Domingo decorreu sem incidentes e esteve bem Domingo o dia inteiro. Agora tenho que respirar fundo e preparar-me para, em breve, me separar do meu filho (e da minha grávida mulher, já agora), durante uma semana inteira.
Compensação: precisamente no dia em que volto vamos à ecografia morfológica ver a… nossa filha.
…porque é que não se diz às crianças pequenas que vão levar uma vacina, mas sim uma “pica”.
Sempre optei por tentar ensinar palavras como deve ser ao Tiago: carro em vez de popó, comida em vez de papa, ferida em vez de dói-dói (embora dói-dói tenha pegado), enfim, coisas…
E portanto sempre lhe disse que ia levar uma vacina ou uma injecção e não uma pica, até porque achava que se dizes logo que é uma pica já estás a descrever a sensação, é tipo dizer a um contribuinte que vai comer um sopapo no trombil em vez de “pagar o IRS”.
Na segunda-feira o Tiago foi levar a sua segunda dose da vacina anti gripe A e à noite, estava queixoso.
“Fez um dó-dói”
“Dói-te o braço, é filho?”
“Sim”
“O que é que fez doer o braço, filho?”
“…foi a vagina.”
Bom, não deixa de ser verdade que às vezes à conta de vagina um gajo passa muito tempo apoiado no mesmo braço…
Rabéte, s.m. Massa alimentícia de farinha de trigo desidratada e entregue ao uso culinário sob a forma de longos bastonetes maciços. Do italiano, Spaghetti.
Depois de alguns meses de aceitarmos que o Tiago viesse para a nossa cama todas as noites e de fazermos uma rotina de deitar em que eu chegava a ficar mais de uma hora no quarto com ele até que adormecesse, decidimos que era chegada a altura de começar a modificar estes comportamentos.
Não acredito muito que valha a pena reagir agressivamente a quase nada, no comportamento dos miúdos, pelo menos nesta idade. Se não come muito bem, dá-se tempo, se não dorme muito bem, dá-se tempo, se não se porta bem no banho… dá-se tempo.
E às vezes, esse tempo serve mesmo para lhes dar uma pequena vitória numa altura em que procuram impor a sua independência e desafiar a autoridade dos pais. Não sei se funciona com todos os miúdos, porque todos são diferentes e por isso mesmo é que já desisti de ler livros sobre educação de crianças.
Com o Tiago tem funcionado. Em coisas não muito graves, deixamo-lo vencer – mas durante um tempo limitado; depois, começamos a explicar-lhe que não pode ser bem assim como ele quer.
Não sei se por força deste “método”, se por puro acaso de personalidade emergente do miúdo, a verdade é que se tem mostrado teimoso… mas razoável.
Hoje de manhã, depois de uma semana doente em casa, voltou à creche. Não queria ficar e fartou-se de chorar, mas quando percebeu que não ia mesmo voltar para casa decidiu chegar a um acordo: pediu para ficar, mas sentado à beira do seu cacifo, o seu “home away from home”, na escola. E assim já aceitou que nos fossemos embora e acabou por ter um dia bom na escola, de tal forma que quando a mãe o foi buscar, não queria ir-se embora.
Fascina-me ver um miúdo tão pequeno começar a compreender os mecanismos do compromisso.
Mas voltando às noites: há cerca de duas semanas que comecei a ficar cada vez menos tempo com ele (mas não prescindo de ficar, porque é do pouco tempo que tenho para estar com ele); depois, explico-lhe o que vou fazer (lavar a loiça, tomar banho, trabalhar), e que mais tarde passo por lá para ver se está tudo bem. Nem uma única vez, desde que comecei a fazer isto, se queixou, fez fita ou tentou levantar da cama. Tapo-o, saio e volto uma ou duas horas depois para ver se está tapado, ver se o quarto está frio, ligar/desligar o vapor, enfim, fazer qualquer ajuste antes de me deitar.
A primeira semana desta nova rotina foi também acompanhada de uma mudança do comportamento nocturno. Continuou a acordar a meio da noite, mas em vez de subir para nossa cama ia simplesmente buscar-me ao quarto e pedir-me para ficar ao pé dele mais um bocadinho. Cinco minutos e estava novamente a dormir na sua cama.
Nos últimos dias tem sido ainda melhor: só acorda de manhã, dormindo a noite inteira no seu quarto.
Não é uma grande vitória. É uma pausa num comportamento que pode regressar. Já aprendi que com os miúdos estas coisas não são fixas – comer, dormir ou portar-se bem não são sinais de comportamentos regulares daí para a frente. A qualquer momento poderá a ter mais stress ao deitar novamente, ou a vir para a nossa cama a meio da noite. Nessa altura, logo se vê, mas por agora… vou aproveitar para dormir cinco horinhas seguidas!