Há duas semanas, o Tiago parou de dormir a sesta da tarde em casa. Na escola dorme, desde que a sala esteja escura e a educadora lhe faça companhia uns minutos; em casa, isso acabou.
Desde que tirámos a grade da cama então é que acabou mesmo, porque nem fica na cama a protestar até se cansar. Levanta-se e pronto.
Hoje decidimos—já que estavamos estoirados— dormir nós uma sesta. Chegada a hora, pusemos a casa às escuras, deixámos o Tiago pronto para se deitar se quisesse e fomos para a cama. Ele, claro, veio connosco.
Deitámo-nos os três e nós alimentámos por uns minutos a fantasia de que dormiríamos uma sesta em família, alegremente.
Errado.
O Tiago desceu da cama e voltou a subir, escondeu-se nos lençóis e revelou-se, gritando cu-cu, atirou o boneco ao chão e foi apanhá-lo novamente, subiu para cama e deixou-se cair em cima da mãe, deu voltas à cama, arrancou tacos do chão, mexeu no carregador dos auscultadores sem fios, bateu com a cabeça na cabeceira da cama, calçou e descalçou os meus crocs, atirou com o boneco, riu-se, levantou-se, deitou-se, sentou-se, fingiu que dormia, fingiu que ressonava, gatinhou entre nós dois e fez tudo isto dúzias de vezes enquanto entoava o seu mantra ‘tapetapetitatitipitatatepetitpi’ sem parar.
Desistimos, fomos comer qualquer coisa, saímos para fazer umas compras e voltámos. Ele dormiu uns 10 minutos no carro, no regresso e assim que chegou a casa estava acordado e fresco que nem uma alface e não voltou a parar até às nove da noite.
Foi no passado dia 24 de Novembro que tudo começou. Já andava cansado de não ter férias desde meio de Agosto e estava mais ou menos à espera de um mês de Dezembro relativamente calmo até chegar aquela semana final em que ia ter uns diazinhos.
Foi nessa segunda feira que ouvi, pela primeira vez, o esquentador ventilado dos vizinhos de cima a empurrar gases queimados para nossa casa. Foi a primeira vez que o esquentador se apagou repetidamente durante o banho da Dee. Foi quando o mês infernal começou.
Na véspera de natal, quando nos sentarmos a jantar com a família, provavelmente bacalhau, fará um mês e praticamente nada está resolvido.
Uns dias antes de começar esta saga, tinha sido o Codebits e eu tinha passado a semana inteira sem pregar olho. Achava que estava cansado na altura, agora estou física e mentalmente falido.
Tapámos o buraco na parede da cozinha, o vizinho de cima abriu um na dele e não ficou convencido que o problema seja ali, é possível que a chaminé esteja obstruída no décimo andar. Entretanto “mete-se o natal e…”; pois… e…
Depois de jiga-jogas infernais com esquentadores, chaminés e maçonaria, estando já stressados q.b., veio a vizinha de baixo bater à porta porque tinha uma infiltração. A dita já vinha da aventura do anormal que nos montou a banheira, pelos vistos tão mal que estava a passar água não só para a vizinha do sétimo, como também para a do sexto.
Foi-se para o seguro, veio o perito e pediram-se orçamentos, todos tardaram, mas chegaram. Todos parecidos. A seguradora aceitou e já está a tratar do pagamento.
Entretanto, desde o dia 4 de Dezembro que não tomo um duche. São banhos de gato, ou chuveiradas tímidas, sentado no fundo da banheira, tentando que não caia água para a fenda que passa para os vizinhos de baixo.
Ando lavado, a higiene não é problema, mas nunca pensei que sentisse tanta falta de um bom duche quente. É que mesmo que pudesse chapinhar muita água na banheira, não posso usar água quente durante muito tempo, por causa do problema do esquentador.
No entretanto, a tomada que alimentava as nossas máquinas de lavar, ardeu e, embora a tenha substituído, algo não ficou bem, porque o circuito que dali saia para alimentar o ar condicionado da sala, deixou de funcionar.
Já teria visto o que se passa, não fosse termos armários construídos na parede, cobrindo a caixa de derivação do dito circuito.
Como temos o tal problema de gases na cozinha, a janela está sempre aberta.
Está um frio do caneco, a janela está sempre aberta, o ar condicionado na sala não tem alimentação e o nosso quadro eléctrico, que nunca estoira com nada, estoira quando ligamos o aquecimento a óleo na sala.
A minha mulher tem sido impecável com todos estes assuntos, já que é ela que está em casa, tirando alguns telefonemas para a gestão do condomínio e o senhorio do andar de cima que fiz eu, ela tem tratado de tudo.
Mas por muito que tenha tentado, não conseguiu ainda ter nada resolvido. É que… “mete-se o natal, e…”
Em Portugal, há pelo menos dois meses que mais valia caírem do calendário: Agosto, porque “metem-se as férias” e Dezembro, porque “mete-se o natal”. Não sei se em Junho não se meterão os santos populares e em Março ou Abril, a Páscoa… ou talvez seja sempre assim tão difícil ter reparações feitas em casa.
Não bastando tudo isto, deu-me uma coisinha má (termo técnico), nas costas, há uma semana atrás e estive uns dias quase sem me poder mexer. Agora já me mexo, mas acordo todo partido, diariamente e com uma dor de cabeça digna de Louis XVI.
O Tiago parece estar com tosse há seis meses (é menos, mas é o que parece), e dormir uma noite seguida cá em casa, tornou-se a excepção e não a regra.
No meio disto tudo, estou-me perfeitamente marimbando para o natal e já as fériazinhas de uma semana que vêm a seguir já me cheiram a esturro… sinceramente, apetece-me fugir. De preferência para um hotel de cinco estrelas no Tahiti.
Sei que já estou farto de dizer que ando cansado. Sim, já me enjôo a mim próprio com esta conversa, mas depois de ter passado uma semana sem dormir, as coisas estão ligeiramente mais complicadas.
Na semana do Codebits não preguei olho. De notar que também não estive no concurso… vim para casa à noite e tudo, mas nem por isso dormi. De quarta-feira, dia 12 até terça-feira seguinte, dia 18, devo ter dormido uma hora numa noite, duas noutra, nenhuma em pelo menos uma delas. Foram para aí umas sete ou oito horas de sono numa semana.
Já lá iam uns tempos valentes desde que tinha umas insónias assim e, sinceramente, já não lhes acho piada nenhuma. Entretanto comecei a dormir, mas isto não é uma coisa de que se recupere com facilidade. Adormeço que nem uma pedra, durmo profundamente, tenho sonhos bizarros e de manhã, entre acordarem-me e espancarem-me com bacalhaus secos, escolheria o segundo, sem hesitar. Desde que não me acordassem.
Em suma: preciso de umas férias. É só esperar mais um mês e picos…
Estou a dar as últimas… tenho a sensação que mais uns dias e caio para o lado. Nunca fantasiei tanto com umas férias na Polinésia como agora e, acreditem, eu fantasio muito com férias na Polinésia.
O Tiago está prestes a completar 20 meses e é uma criança extremamente regular: acorda todos os dias às oito da manhã e, sobretudo desde o ano e meio, todos os dias de manhã arranja justificação para fazer uma pequena birra. Nada de especial, apenas algo com uns guinchos e cabeçadas na mobília à mistura para nos lembrar que há quase dois anos que não podemos passar uma manhã na cama ou, sei lá, um fim de semana sem fazer a ponta de um corno.
Gosto muito do meu filho e raramente me queixo dele, mas confesso que já dormia até ao meio-dia um dia destes… porra, até às dez da manhã já seria um luxo digno de um Rajá.
Já não consigo distinguir o que é mais cansativo: a semana de trabalho ou o fim de semana… de trabalho. Com a mulher a dias a tirar umas férias de duas semanas que já vão em cinco, temos a limpeza da casa a juntar-se a tudo o resto que já não era pouco.
Estou aqui sentado a escrever, enquanto o Tiago dorme a sesta e eu cozinho sopa para ele; seguem-se uns bifes de perú no forno, para durarem uma semaninha.
Quando o Tiago dorme a sesta, há algo para fazer, cozinhar, limpar ou arrumar, quando o Tiago vai passear com os avós, há trabalho para fazer, problemas para resolver, coisas para por em ordem. Quando o Tiago está em casa e acordado, claro, o que quero é aproveitar e passar tempo com ele, remetendo as obrigações profissionais e domésticas para aquilo a que eu costumava chamar “tempo livre”.
Tenho a nítida sensação que um dia destes vou adormecer no metro e passar o resto do dia a fazer o trajecto Cais do Sodré-Telheiras, para trás e para a frente.
Terminou mais um fim de semana. Além de toda a actividade familiar incluindo duas idas à praia com o Tiago, estive a malhar em mais uma tira dos Especialistas. Terminei agora, à uma e meia da manhã e estou tão cansado que não sei o que prefiro: ir para a cama, ou abrir já a janela do escritório e saltar.