Tal como informei atempadamente, não fosse a imprensa sensacionalista, perdão, a comunicação social, querer cobrir o evento, fui recentemente vacinado contra o vírus da gripe H1N1.
A vacina consta de uma injecção intra-muscular, dada no deltóide esquerdo, se a anatomia não me falha. É uma simples picada para pessoas normais e uma horrenda experiência de mutilação para aqueles esquizitinhos que têm medo de agulhas.
O líquido causa algum desconforto a entrar, mas nada de violento – uma pequena pressão.
Depois, claro, as tonturas, vómitos e ataques de caspa incontroláveis. Tentei por-me de pé, mas, incapaz, tombei espumando da boca.
Enquanto tentavam segurar-me, o meu corpo convulsionava violentamente e os meus olhos empalideceram para um cinzento esbranquiçado aterrador.
Fui injectado dezenas de vezes com sedativos, sem qualquer resultado e foi então que a minha fisionomia começou abruptamente a alterar-se perante o olhar estupefacto do pessoal de enfermagem, médicos e auxiliares do centro de saúde: à vez, protuberâncias ósseas e deformidades musculares rompiam através da minha roupa frágil perante tão repulsiva mutação.
O meu corpo, tomado pelos efeitos hediondos – não da vacina – mas dos misteriosos adjuvantes desenvolvidos pela CIA, duplicou ou, quiçá, triplicou de volume, assumindo uma aparência dantesca ou como se diz por aqui, “de meter medo aos cães”.
Por esta altura, claro, já o edifício estava cercado pela Companhia de Operações Especiais, armada com a mais recente tecnologia de combate a anomalias mutantes e monstruosidades diversas o que só demonstra – claramente – que esta vacina está a ser produzida em conluio com os Governos internacionais, pelas farmacêuticas que sabem bem o que se esconde por trás da designação H1N1 – na verdade HINI, um velho truque de substituição da letra i pelo numeral 1 – que significa nada menos que Humanos Inibidos e Neutralizados por Injecção.
Claramente, o meu caso teve alguns efeitos secundários.
Usando armamento que só pode ser classificado como futurista (sem dúvida obtido nos destroços da nave alienígena recuperada no Novo México em 1947), gasearam-me e levaram-me para um laboratório secreto, ali para os lados de A-dos-Cunhados.
Entretanto e depois de inúmeros testes que sem dúvida permitirão ao Governo apurar esta fórmula de controlo de mentes, nomeadamente eliminando os efeitos secundários ligeiros que eu senti, fui devolvido à vida do dia a dia com uma valente dor no braço e sem qualquer espécie de subsídio compensatório!
- Diz lá o que queres. – Disse Riki num tom apressado – É que tenho o Albatroz estacionado em terceira fila, ainda apanho uma multa!
Era mesmo verdade, o Albatroz estava muito mal estacionado e a polícia anti-democrática rondava muitas vezes aquela área.
- Preciso de saber que número calças, para te poder comprar uns chinelos de peluche. – Respondeu a Sandrine – Não é o que queres para os anos?
Era realmente o que Riki queria para os anos.
Aconchegou a estola cor de rosa à volta da cintura e respondeu:
- Sandrine, podias ter telefonado para o teleférico, ao menos escusava de ter vindo à baixa, estacionar assim o Albatroz ao deus-dará! Mas pronto… como é por causa de um presente para mim, não te espanco com a corrente de bicos.
- Obrigado, Riki – respondeu Sandrine, nitidamente feliz. – Então diz-me lá, que número calças?
- Catorze, calço catorze em chinelos de peluche. Mas vê lá se são fúschia, sabes perfeitamente que odeio verde-alface e ouvi-te falar sobre verde-alface com a minha mãe ao telefone, um destes dias!
- Descansa, falávamos apenas dos collants de plástico brilhante que eu queria comprar.
- Bom, está bem. Tenho que ir, ainda me apreendem o Albatroz.
Despediram-se com um sorriso e Riki foi montar o Albatroz, que se encontrava perturbado. Ao levantarem voo, Riki notou que o Albatroz não se sentia bem, mas atribuiu tudo a tê-lo deixado em terceira fila e, por isso, não lhe perguntou o que se passava.
O dia seguinte foi de festa. Riki fazia cento e quarenta e dois anos e estava prestes a atingir a maioridade (só lhe faltavam dois anos). Ofereceram-lhe uns lindos chinelos de peluche fúscia, tal como ele queria, e mais um chapéu à cowboy de couro azul, com plumas vermelhas esvoaçantes… ele adorou.
Quando a festa acalmou e os Rodrigues se foram embora (eram os que comiam mais e faziam muito barulho, porque gostavam de cantar), Riki sentou-se com Sandrine e conversaram sobre várias coisas: estavam a pensar casar-se, agora que já tinham juntado todos os cupões necessários para poder requisitar um filho e que tinham dinheiro suficiente para o vestir com belas roupagens cor de néon. No meio da conversa, Riki lembrou-se de referir que achara o Albatroz um pouco indisposto no dia anterior, mas que não ligara pois sabia que o Albatroz não gostava de ficar em terceira fila.
- Vou lá levar-lhe um bocadinho de bolo de cebola! – disse Sandrine, pondo-se de pé num salto.
Sandrine era muito enérgica.
- Fazes bem. E eu vou contigo, aproveito para o lavar. Ele gosta que o lavem.
E foram os dois até à garagem tratar do Albatroz.
Qual não foi o espanto de ambos quando verificaram que o Albatroz tinha fugido.
- Mas… assim, sem dizer água-vai?! – exclamou Riki
- Tem calma, Riki, ele há-de estar para aí.
Durante todo o dia procuraram o Albatroz. Poderiam tê-lo deixado ir, mas Riki estava muito ligado a ele, tinha-lhe sido oferecido pelo Governo Federal por serviços prestados ao gabinete de contagem de dedos dos pés e não era um Albatroz qualquer: era grande e azul cobalto, com um bico muito aerodinâmico. Mas não havia nada a fazer, naquele dia não conseguiam encontrar o Albatroz e já estava a ficar escuro.
Doze dias e doze noites se passaram e nada. O Albatroz não aparecia.
- Nem ao menos um telegrama! – Riki, desesperava – podia ao menos escrever, o safado! Tantos anos de cuidados para com ele, de atenção, de carinho e boa comida… e agora abandona-me assim!
Sandrine não conseguia animar o seu noivo e mesmo ela começava já a sentir saudades do simpático Albatroz.
De repente, a Mãe de Riki, Senhora Blöomfaghstàrrin, entrou na sala a gritar desesperadamente:
- Riiiiiki! Riki! Vem depressa, encontramos o Albatroz!
Riki não podia acreditar, o seu Albatroz!
Correu, seguindo a mãe, com Sandrine logo atrás.
O Albatroz estava na capoeira das Avestruzes, aninhado a um canto, sobre um grande monte de palha.
Foi então que descobriram a verdade. Era uma fêmea! O seu Albatroz era na verdade uma Albatroz e tinha ido para a capoeira das Avestruzes refugiar-se, pois era o melhor sítio para por os seus ovos.
- E vocês que não me disseram nada! – disse, sorrindo, Riki para as Avestruzes.
Os povos são foleiros, por definição. É mesmo isso que é ser povo: é partilhar com um grande número de pessoas várias foleirices definidoras. Mas as maiores foleiradas não são aquelas mesmo típicas, como o grande bigode com cheiro a vinho tinto, a camisa aberta com o pelum a sair e uma crucifixo de ouro perdido no matagal.
Essas são demasiado óbvias. As melhores foleiradas são aquelas cujos prevaricadores ignoram como tal. Como estas oito, com grau de foleirice cientificamente testado e aplicado numa escala de 0 a 10:
1 – Fita do senhor do Bonfim
É muito difícil levar a sério um gajo com uma carreira profissional estabelecida, um lugar estável numa grande empresa, uma posição de poder e responsabilidade sobre um grupo razoável de pessoas que anda com uma fitinha de tecido atada ao pulso, com um ar gasto e coçado.
Diz o folclore que se deve dar três nós na fitinha e pedir três desejos que serão satisfeitos quando o tecido se desgastar e a fitinha cair por si. Lérias, evidentemente. Nada demonstra mais tacanhez mental do que ser supersticioso e andar com uma fitinha destas só pode ser superstição, porque se é pelo valor estético, então a coisa piora dez vezes.
Grau de foleirice: 6 se o utilizador for mulher, 8 se for homem.
2 – Telemóvel à cintura
Ora aqui está um clássico intemporal! Quem nunca ouviu dizer: “Jovem, se és construtor civil e gostas de aventura, usa o telemóvel à cintura!”, o meu amigo Fernando diz isso a toda a hora e ele sabe do que fala porque passa o dia com construtores civis.
Mas se todos esperamos que os construtores civis sejam tipos foleiros (a pulseira de 12kg de ouro maciço a balouçar no pulso, dependurado da janela do Mercedes), o que dizer de homens de negócio, no seu melhor fato Hugo Boss, que, quando o seu Motorola Razr vibra, o sacam de uma pochette de cabedal que está pendurada no seu cinto de pele de crocodilo?
A pochette para o telemóvel é o coldre do yuppie e ninguém consegue usar uma e ter o mínimo de aspecto cool.
Grau de foleirice: 7 se for homem; 10 se for mulher (acho que nunca vi nenhuma, felizmente)
3 – Bolsinha de cintura ao pescoço
Há muito tempo que os homens se debatem com o problema de carregar os seus pertences. Problema que as mulheres resolveram há muito com toda a espécie de malas, malinhas, sacos e pochettes. Mas homem que é homem, tem uma verdadeira luta interna no que toca a recolher os seus itens essenciais num contentor adequado à sua masculinidade.
E foi assim que surgiram algumas das malas mais foleiras da história, a famosa paneleirota já não circula muito por aí, portanto fica ausente desta lista. Também conhecida como “malinha das pixas”, é uma malinha com uma tira de couro para andar pendurada no pulso.
Mas a grande substituta desta magnífica forma de transporte de objectos, é a pochette de cintura, a malinha-banana, a fanny-pack. Se uma bolsinha de cintura já é um pouco (muito?) foleirota, o que dizer de andar com uma pendurada ao pescoço?
O mais foleiro desta atitude é que vem de uma clara incapacidade de certos homens simplesmente comprarem ou uma mochila ou uma mala de tiracolo e pronto. Como acham ambas essas opções demasiado maricas, optam por uma bolsa mais pequena, com um ar geralmente mais desportivo e depois usam-na ao pescoço como se fosse um pequeno mamífero a quem acabaram de partir o pescoço.
É portanto, um símbolo másculo de carregar a caçada de volta para a toca. Absolutamente patético. E mais patético ainda é ver miúdas a fazer precisamente o mesmo.
Grau de foleirice: 7 tanto para homens como para mulheres.
4 – Auricular bluetooth completamente fora de contexto
Um auricular bluetooth é um item razoavelmente prático. Embora continue a ser perigoso conduzir e falar ao telefone, porque o que causa maior perigo é a distracção de ir a conversar e não necessariamente ir com um telefone na mão, a coisa é talvez melhor com um auricular. Não sei, é discutível.
O que não é discutível é que andar com um auricular bluetooth colocado na orelha durante todo o dia, em qualquer lugar é do mais foleiro que há. Este é um daqueles típicos actos do homem moderno, evoluído e techno-savy. Pelo menos na sua imaginação.
Esta é uma pessoa tão importante e ocupada, que tem que ir para o hipermercado com o auricular bluetooth colocado na orelha direita, não vá o Director Geral dos Assuntos Internacionais de Qualidade ligar-lhe sobre um tema da mais urgente importância.
É, evidentemente, o acto de um pelintra desesperado por atenção e carregadinho de auto-importância. A coisa é tanto piorada quanto menos se vê tipos destesefectivamente a falar ao seu auricular. Limitam-se a arrastar os putos pela secção de jogos de consolas da Fnac com a sua estúpida luzinha azul a piscar desesperada, qual truta a espadanar no fundo de um balde.
Grau de foleirice: 8 para homens, 10 para mulheres (mais uma vez, não me lembro de ter visto nenhuma nesta figura).
5 – Tatuagens fatelas
As tatuagens eram coisas de gajos beras: marinheiros de má onda, prisioneiros de longa data, motoqueiros com hálito a cadáver.
Aos poucos, as tatuagens passaram para o mainstream e qualquer pita ranhosa de 14 anos já tem um ass-target tatuado no fundo das costas. Depois admiram-se…
As tatuagens costumavam ter significado: um gajo, por muito bera que fosse, não se tatuava com uma bowie a atravessar um coração e uma caveira, tudo enrolado por uma serpente, se isso não significasse que tinha morto a própria mãe, por amor de uma mulher, que mais tarde o enganou tornando-o um alcoólico amargurado.
Hoje em dia, umas têm significado e as outras são meramente decorativas e, na generalidade, completamente idiotas, já para não dizer mal desenhadas. Há poucas coisas mais foleiras do que o gajo de vinte e poucos anos que anda a encher no ginásio e vai a meio de uma “tribal” (embora ele, no fundo, não faça sequer ideia do que é uma tribo, quanto mais quais as tradições das várias populações que ainda vivem neste tipo de sociedade), grotescamente desproporcionada e bastante tosca, como se desenhada por um anão zarolho com parkinson.
Gostava de ver esse jovem daqui a dez anos a tentar arranjar emprego.
A rainha das tatuagens fatelas são as letras chinesas que dizem “adoro ser vergastado na cara por pilas do tamanho de Range Rovers”, mas que o dono está convencido que diz “paz, amor, harmonia e feng shui”. Moças com ass-targets estão na mesma categoria. Se gostam de apanhar no rabo (não há nada de errado com isso, desde que todos sejamos adultos e coniventes no acto), então por favor tatuem: “gosto de sodomia”; não é preciso estar com rodeios.
Se têm alguma coisa de marcante a dizer, por favor pensem bem no assunto e tatuem-se de acordo. Se gostam de se enfeitar, nada de errado: escolham um motivo que vos agrade e disponham-no na vossa pele. Agora, por favor, se não têm a quarta classe, limitem-se a kalkitos do bollycao.
Grau de foleirice: 6 a 8 para homens, conforme o nível de horripilância do desenho; 9 se forem letras chinesas que nem sequer compreendem; 8 para mulheres com ass-targets e/ou qualquer coisa com Golfinhos.
6 – Camisas coloridas com colarinhos brancos; também: cor de rosa integrado num fato
Eu não sei o que passa pela cabeça destes homens que vestem fato com uma camisa cujos punhos e colarinhos são brancos, ao contrário do resto da camisa que é azul, verde ou… pior ainda: cor de rosa.
Não sei quem teve a ideia de fabricar camisas assim, nem qual o objectivo, mas por muito que pense no assunto, não vejo qualquer razão lógica para desenhar uma peça de vestuário tão absolutamente foleira.
Seja qual for a tua cara, se vestires uma camisa azul com colarinhos e punhos brancos, ficas imediatamente com cara de cú à paisana. É imediato e irreversível.
E a foleirada é mesmo adequada ao espírito deste artigo, porque quanto mais macho man do mundo dos negócios, mais vemos destas camisas. Quanto mais alto o nível de vida, mais cara e feia a camisa. Esta não é uma foleirice de taxista ou camionista: essas são honestas! Esta é tão mais foleira quanto a arrogância e bullshitismo abundam no utilizador (vide mister P. Portas).
Dentro desta categoria está o uso do cor de rosa num fato de homem. Se o fato for todo cor de rosa, se o homem se chamar George Michael e se estiver na altura a ganhar milhares de dólares a actuar ao vivo, tudo ok (desde que a camisa seja preta e a gravata também rosa), mas se o fato é um Brooks Brothers sóbrio e clássico, o cor de rosa não faz lá falta nenhuma: nem um fato cinzento com gravata rosa, nem um fato preto com camisa rosa, nem um fato de tweed com camisa rosa de punhos brancos e gravata vermelha.
Se usam fato, aguentem-se à bronca e deixem-se de passarinhisses: é foleiro.
Grau de foleirice: Esta é só para os meninos: 8.
7 – Pulseirinhas de borracha de apoio a causas nobres
Esta está quase ao nível da fitinha do Bonfim, mas é pior. Sabem o que dizem estas pulseirinhas sobre quem as usa?
“Eu apoio o chinês que fabrica estas pulseirinhas”.
Se apoiam alguma causa, tudo muito bem: dêem-lhes dinheiro ou géneros; não comprem, por favor, uma pulseirinha de plástico. Isto é tão ou mais foleiro que as fitinhas que se usavam há uns anos atrás, ao peito, em que chegava a ser mais significativo andar de fitinha vermelha do que, efectivamente, usar preservativo.
Porque é que acham que o mundo precisa de saber se são contra o cancro da mama (haverá alguém a favor do cancro de seja o que for?). Não me parece que uma pulseira de plástico vá motivar os outros a dedicarem-se a uma qualquer causa. Querem ajudar? Dêem-se como voluntários.
Grau de foleirice: para quem efectivamente apoia a causa: 7; para quem nem sequer sabe o que fazer para ajudar: 10.
8 – Gordos de roupa apertada, magricelas de roupas largas
Ser gordo é, em 90% dos casos, uma questão de escolha. Não me venham com as merdas das glândulas, porque acho que ainda não há nenhum Häagen Dazs glandular.
Cada um é como quer e como se sente bem. Se não se sentem bem gordos párem de comer!
Agora que isto ficou esclarecido, só uma nota: há poucas coisas mais foleiras que uma gorducha anafada de calças à pirata e saltos-altos, com as banhas a pender pela cintura descaída e o ass-target (ver acima), a ondular com cada passo.
Amem o vosso corpo, mas por favor, vistam qualquer coisa do vosso número! Ou bem que se aceitam tal como são, ou bem que estão a dar uma grande tanga a toda a gente quando dizem isso.
E o que dizer dessa maravilha que é o gajo que pesa 42 kg. e anda com umas calças 3 números acima, pelo meio das nádegas? Por favor, alguém compre umas calcinhas a estes rapazes! O que vos leva a crer que alguém está interessado em ver as nódoas suspeitas das vossas cuecas?
Não sei o que é pior: cú gordo a transbordar de calças feitas para adolescentes magrinhas ou peida de gajo completamente de fora de uns jeans obtusamente descaídos.
É que nada disto é fashion. É, simplesmente, foleiro!
Grau de foleirice: para andar com o cú de fora, é bom que sejam Vida Guerra, tirando ela, 10 para todos.
E pronto, eram para ser dez coisas, mas não tenho tempo. Espero ter contribuido positivamente para a evolução da nossa sociedade como, aliás, já é meu hábito
A tosse não passa. Ontem fui trabalhar e voltei pior, o que poderia dar uma enorme dissertação sobre os malefícios do trabalho, mas não sejamos vulgares.
Passei a noite a tossir e a minha tosse não é uma tosse normal. A minha tosse é diferente, desde que fiquei entalado entre duas dimensões. De um lado, tusso, mas do outro, pequenos duendes despejam napalm pelos meus brônquios, enquanto um grupo de orcs neo-nazis me dá pontapés na cabeça. Para que não fuja, duas dominatrixes húngaras, sentam-se nas minhas costas enquanto pintam as unhas de azul cobalto e no fim, o guarda-costeiro – cujos membros são na verdade pedaços de bacalhau – dá-me pauladas no dorso.
Quando me levantei de manhã, não só estava cansadíssimo, como tinha as marcas dos saltos altos das húngaras, nos antebraços. Muito desagradável – acreditem.
Então fiquei a trabalhar em casa, com a esperança de não apanhar muito frio nem humidade (o frio excita os duentes incendiários e a humidade deixa os orcs loucos). Como habitualmente, fui mais produtivo do que no escritório – o que poderia levar a outras dissertações sobre erros básicos de gestão de espaços de trabalho, mas agora não me apetece.
Ao fim do dia, não estava especialmente melhor. Já tomei azitromicina, que acabou hoje; estou a tomar singulair de manhã e xyzal à noite e ambroxol três vezes ao dia, mais a bomba de symbicort de manhã e de noite e comecei hoje com codipront, mas continuo a tossir que nem um camaleão toxicodependente e não prevejo melhoras significativas nas horas mais próximas.
Portanto, vou ali para a sala, deitar-me no sofá, a ver o Masters de Snooker de Wembley, 2007.