O que fazer na vida

Publicado em , por Pedro Couto e Santos

Tem-se falado muito do rapaz que grita com sotaque do norte sobre trabalhar 126 horas por dia. Parece que foi chamado ao dever cívico pelo mais energúmeno dos nossos governantes o que, de facto, não espanta ninguém. Estão bem um para o outro, são ambos enormes armazéns dessa matéria tão fértil que com os anglófonos aprendemos a chamar de trampa de boi.

Mas toda a gente tem o direito de defender as suas ideias. O Relvas tem o direito de cantar a Grândola, embora conviesse aprender a letra e o rapaz que usa sapatilhas e já esteve razoavelmente perto do Zuckerberg, tem o direito de dizer que temos que trabalhar muito, muitas horas, fazendo a mesma coisa 200 vezes até sair perfeito.

Eu, que já apalpei o rabo à Nina Hartley (mesmo), acho que tenho o direito de defender o meu ponto de vista que é exactamente o oposto. Trabalhar é uma merda. Trabalhar é cansativo e aborrecido. Fazer a mesma coisa 200 vezes até sair bem é imbecil e sinal de falta de organização e de conhecimento da área em que se está a trabalhar.

Nós devemos é maravilhar-nos. Devemos ou trabalhar o mínimo indispensável para ficarmos com rendimento e tempo livre para irmos viver o resto da nossa vida ou arranjarmos um trabalho que nos dê prazer fazer e se confunda ou complemente com naturalidade essa vida.

Devemos ir para o trabalho para fazer coisas para nós e para as pessoas para quem trabalhamos, sejam clientes ou colegas ou mesmo para o patrão. E não para fazer horas, para queimar tempo, para podermos dizer que estivemos 22 horas no escritório todos os dias desta semana.

E o que produzimos? Não interessa? Não só interessa… é o que interessa.

Mas não me espanta que o Governo tenha ido buscar o macaquinho cujo sotaque parece fazer parte da actuação: este é o Governo que acha que é eliminando feriados e dias de férias que se produz mais, num país onde as pessoas passam mais horas no trabalho do que no resto da Europa e no entanto produzem menos do que a média.

Ou fazemos algo de que nos orgulhamos e nos dá prazer ou fazemos algo só para ganhar dinheiro para irmos buscar o prazer a outro lado. O prazer, o lazer, a aprendizagem, o amor, o contacto com de quem gostamos, a descoberta de sítios, sejam locais ou mundos imaginados – estes devem ser alguns de muitos objectivos das pessoas.

Motivar, só por motivar é idiota. Falar muito e fazer pouco é inútil. Todo o sistema em cima do qual a nossa sociedade está montada, está podre. Não estamos a evoluir no sentido de uma libertação das pessoas, da elevação do seu potencial humano, estamos a moer metal e a ficar parados, estamos a fazer a mesma coisa, vezes sem conta e a esperar resultados diferentes. Arranjamos rapazolas cuja vida é ganhar dinheiro a gritar para audiências e pomo-los a gritar para audiências, na esperança de que se levantem e vão trabalhar para pagar impostos, para alimentar a máquina, por podre que esteja, porque toda a gente deve cada vez mais dinheiro a toda a gente e precisamos mesmo de motivar as pessoas a matar-se a trabalhar, sem olhar a quê, nem a quem, para “alavancar sinergias e gerar riqueza”, para voltar a alimentar a máquina.

E não se educam os povos e não se libertam as pessoas e não se valoriza aquilo que realmente faz de nós seres humanos e não macacos de gravata, aos guinchos uns para os outros, a ver quem faz mais horas, quem dorme menos, quem mais ignora a família e os amigos para obter um sucesso vácuo e dinheiro para exibir aos outros macacos.

 

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6 comentários a “O que fazer na vida”

  1. A sátira do Bruno Nogueira embora seja humorística é totalmente verdadeira. O ‘guru’ que tantas citações decoradas e lições sobre sucesso tem provavelmente nunca fez um projeto que se destacasse ao menos (não considero ser orador um projeto lol)

    Enfim… Bom artigo :)

  2. ARTUR says:

    “O Direito à preguiça”, de Paul Lafargue. Está lá tudo isto e tem mais de 100 anos!

  3. […] abordar aqui a escolha do Governo para embaixador do “Impulso Jovem”, até ter lido um post do Pedro Couto e Santos, com o qual concordo. Deixo aqui parte do […]

  4. A comunicação é uma arma perigosa porque do lado do receptor haverá apenas lugar a uma interpretação (do que ouviu/leu) e nunca aquilo que verdadeiramente houve intenção de transmitir.

    Fiz esta introdução (meia) filosófica porque noutra altura (http://youtu.be/kQ3tbz_YhXo) fiz uma interpretação das palavras do Miguel Gonçalves bem diferente daquelas que li nos comentários da notícia original (http://www.publico.pt/politica/noticia/relvas-apresenta-embaixador-que-conheceu-no-youtube-1589890).

    Quando apareceu no programa Prós & Contras ainda não tinha o título de “embaixador” e achei a sua mensagem interessante pelo facto de (na minha interpretação) alertar para a necessidade de cada jovem investir em si mesmo, muito para além duma licenciatura.

    Naturalmente que as interpretações são muito daquilo que é a experiência pessoal e profissional de cada um e transportando-a para a minha realidade e daqueles que se movem no universo das TIs, questiono-me porque é que os jovens a frequentar cursos superiores na área da informática, não vão para além da implementação do jogo da forca ou do galo, do sistema de gestão de bibliotecas e parques de estacionamento, etc… (tudo exercícios que, para quem frequentou disciplinas de programação certamente são familiares).

    Porque é que não há mais investimento em ideias próprias aproveitando o período académico e os recursos (docentes e equipamentos) das universidades?
    Porque é que na generalidade dos casos se fica sentado à espera que “saia o enunciado do trabalho prático” ao invés de se proporem um?

    Acho que o descrédito vem com os títulos. O Miguel Gonçalves, para mim, ficava bem com o título de palhaço que lhe atribuí (mesmo sem prova escrita ou oral) nas conversas onde discuti a sua intervenção no programa Prós & Contras.

    Quanto ao texto em si, gostava de partilhar um pensamento do Professor Agostinho da Silva: “O Homem não nasceu para trabalhar, mas sim para criar.”

  5. Hugo S. says:

    Ora aí está. Qual a vantagem dese passar horas a fio no trabalho se a produtividade não espelha o tempo dispendido?
    Vivo na Alemanha, trabalho para o controlo de qualidade e conheço a empresa toda, além de ter tempo para apreciar as subtilezas do trabalho.
    Ainda ontem estava a fazer turno da noite (21h – 6h) e às 6h05 não só não havia ninguém na secção como estava tudo arrumado, sacos do lixo desapareceram, computadores desligados, luzes apagadas. Eu nem posso entrar 5m mais cedo. Se me vêem, mandam-me para a cantina esperar pela hora de entrada.
    No embalamento trabalham de acordo com uma lista:
    100x produto 1 para X
    50x produto 1 para Y
    800x produto 2 para X
    350x produto 3 para Y
    300x produto 4 para armazenar

    O importante é fazerem o embalamento para X e Y, com prioridade para X. Se não houver que chegue para X e Y de um produto comum, X completa-se, Y leva o “resto”.
    O que for para armazenar, faz-se o máximo e o que sobrar, o outro turno termina.
    Sair mais cedo? Depende, se houver produto para armazenar e tiveres acabado uma palete a 10m do fim do turno, olham para ti e dizem: “Ainda tens tempo para trabalhar”, mesmo que fiques com uma palete a 1/3. Se não houver, até te despacham 1h mais cedo.
    Estás sem trabalho? Podes ir ajudar um colega que tenha mais trabalho.
    Um dia, ainda eu estava a dar duro no embalamento, 2 meses na empresa e mal percebia alemão, estava a pesar artigos e a colocar em caixas, quando passo a ter 2 directores a conversar ao meu lado enquanto pesavam os artigos e eu apenas os organizava nas caixas.
    É perfeitamente normal ver o director de recursos humanos de cócoras a apanhar lixo. Ou mesmo a pôr-se ao lado de um funcionário e trabalhar com ele enquanto conversam sobre algum problema ou a dar novas indicações.
    Tenho um horário de trabalho mau, por vezes dão-me a volta e mudo de turno a meio da semana mas sinto-me melhor aqui a trabalhar no controlo de qualidade do que me sentia em Portugal num trabalho de escritório.
    Definitivamente não é o trabalho que quero estar a fazer daqui a 1 ano mas passado 8 meses não me arrependo de ter mudado e começado do zero.

  6. gauthma says:

    Já agora, sobre o mesmo tema (escrito por um antigo professor): http://eden.dei.uc.pt/~henrique/Vida/Escritas/Preguica.html

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