Há cerca de 12 anos atrás, joguei um jogo absolutamente fantástico de uma assentada só. Depois de sete ou oito (ou mais?), horas a jogar sem parar, saà para passear o cão e senti-me tonto e um pouco fora da realidade… ao fim de cinco minutos na rua estava mal disposto.
O jogo chamava-se Doom e era a nova produção da id Software, a empresa que nos dizia “get psyched” antes de cada novo nÃvel do pioneiro Wolfenstein 3D. O jogo passava-se em Phobos e Deimos, numa base de pesquisa onde algo tinha corrido mal com experiências envolvendo teletransporte.
Em resumo, os cientistas tinham aberto um portal para o inferno e as mais variadas criaturas monstruosas populavam agora a base da United Aerospace Corporation, ombro a ombro com os zombies dos ex-guardas de segurança. O ano era 1993 e depois de jogar e re-jogar o Doom e, mais tarde, Doom II: Hell on Earth, comecei a ter cada vez mais convicção que os jogos podiam dar um excelente filme de ficção cientÃfica.
Quem me conhece sabe que já vivi várias aventuras à custa do meu intestino. Houve a vez que tive uma diarreia explosiva na casa de banho do estúdio fotográfico de um potencial cliente. Houve aquela outra em que tive que parar na estação de serviço a meio da auto-estrada para ir a uma casa de banho nojenta. E outras aventuras, algumas das quais do conhecimento apenas de um selecto grupo de pessoas. Digo só isto: ainda bem que já vendi o Fiat Punto.
Hoje foi novamente dia de sofrimento colónico.
Ontem resolvi assar umas magnÃficas castanhas que a minha mãe me deu, vindas da minha avó e que, ao que constava, eram uma maravilha. Recebi um aviso sábio da minha mulher: amanhã vais estar cheio de dores de barriga e tens que ir trabalhar.
Tudo bem – pensei eu – como só algumas. Decidi então fazer 24 castanhas, precisamente 12 para cada um. Mas como adoro castanhas – e aquelas tinham um fantástico aspecto – optei por 30 castanhas, 15 para cada um.
Tudo óptimo enquanto ainda estava dentro de um raio aceitável de uma casa de banho pública. Foi apenas quando o carro deixou o parque de estacionamento subterrâneo que a dor me atingiu. Tentei levar a coisa nas calmas, fiz uns comentários sobre gases e soltei uma amostra para por toda a gente à vontade com a possibilidade real de eu me borrar todo a meio do caminho.
Os meu amigos, como bons amigalhaços que são, aproveitavam para gozar comigo à grande e à francesa. E eu só lhes pedia que se calassem. Mas claro… não se calaram. Eu teria feito o mesmo.
Perguntei ao velhote atrás do balcão, já com pouca esperança, se tinha casa de banho… ao que ele me disse que sim, era lá em cima. O meu mundo ressuscitou! “Mas vai lá aquele senhor”, acrescentou o velhote.
Olhei, horrorizado, enquanto um septuagenário subia lentamente a estreita escada de caracol que levava à minha salvação. O que fazer? Vou atrás dele… espero, só mais uns segundos!
Em que paÃs estamos, afinal? De quem foi a ideia de importar uma celebração que não tem qualquer significado no nosso paÃs? Que se seguirá? O dia de los muertos mexicano?
E de facto, está a tornar-se cada vez melhor negócio: agora já se vendem máscaras, papelinhos, bisnagas de água e serpentinas duas ou três vezes por ano… carnaval, ano novo e agora o halloween.
Uma destas noites sonhei que tinha quarenta e tal anos. Não sei quantos, ao certo, mas o sonho era pouco mais do que eu surpreendido por estar de repente com mais de 40 anos.
Passava o tempo a tentar explicar à s pessoas que tinha 32 e não 40 e tal e que devia ter havido um engano…
Acho que não podia ser mais evidente se tentasse: sinto-me a perder tempo, como se espremesse os dias e não saÃsse nada. Será que um dia vou mesmo acordar e ter 40 anos?
“Time”, Pink Floyd
Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way
Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain
And you are young and life is long and there is time to kill today
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun
And you run and you run to catch up with the sun, but it’s sinking
And racing around to come up behind you again
The sun is the same in a relative way, but you’re older
Shorter of breath and one day closer to death
Every year is getting shorter, never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in a quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over, thought I’d something more to say
Home, home again
I like to be here when I can
And when I come home cold and tired
Its good to warm my bones beside the fire
Far away across the field
the tolling of the iron bell
calls the faithful to their knees
to hear the softly spoken magic spell
Antes do Alex, a minha vida estava mais ou menos orientada… não se pode dizer que tivesse grandes ambições, mas sabia o que estava a fazer. A coisa baseava-se basicamente no meu trabalho que me ocupava horas suficientes para eu pouco mais fazer.
Mas estava pronto para todas elas. Talvez não preparado, mas pronto para as receber. E quando o perdi, fiquei com um buraco… um vazio com o qual não sei bem o que fazer. Não perdi de vista o projecto, mas o espaço que criei está aqui agora… talvez venha a precisar dele daqui a dois anos, mas neste momento não sei o que fazer com ele.